Evite
"Libras é a segunda língua oficial do Brasil."
A Libras é uma língua reconhecida por lei, com estrutura própria e papel central para a comunidade surda. Mas a frase "segunda língua oficial do Brasil" não é o que a legislação diz.
Uma frase bem-intencionada, mas imprecisa
Você provavelmente já leu ou ouviu: "a Libras é a segunda língua oficial do Brasil." Ela aparece em cursos, eventos, publicações e até em materiais institucionais. Quase sempre, a intenção é boa — valorizar a Língua Brasileira de Sinais e reconhecer sua importância para a comunidade surda. Mas do ponto de vista legal, a frase não está correta.
Isso não diminui a Libras em nada. Ela é uma língua completa, com gramática própria, valor cultural e papel direto no acesso a direitos. O que muda é a forma de descrever esse reconhecimento. E essa diferença importa — tanto para quem escreve sobre Libras quanto para quem planeja acessibilidade na prática.
O que é idioma oficial do Brasil
A Constituição Federal define, no artigo 13, que a língua portuguesa é o idioma oficial da República Federativa do Brasil. Esse é o único idioma com esse status no plano constitucional nacional. A Libras tem um reconhecimento diferente — importante e legítimo, mas diferente.
A língua portuguesa é o idioma oficial da República Federativa do Brasil. Nenhuma outra língua — incluindo a Libras — é declarada idioma oficial nacional pela Constituição. Isso não é uma ausência de reconhecimento da Libras. É simplesmente o que o texto constitucional diz sobre idioma oficial do país.
O que a Lei de Libras realmente reconhece
A Lei nº 10.436/2002 reconhece a Língua Brasileira de Sinais como meio legal de comunicação e expressão. A lei também descreve a Libras como sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria.
Isso é muito relevante: confirma que Libras é língua — não mímica, não gesto solto, não versão gestual do português. Ela tem gramática própria, usa o espaço, o corpo e as expressões faciais para construir sentido, e é a língua de muitas pessoas surdas brasileiras. Mas reconhecer a Libras como meio legal de comunicação e expressão não é o mesmo que declará-la idioma oficial do país.
A lei reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão, descrevendo-a como sistema linguístico de natureza visual-motora com estrutura gramatical própria. Não há, no texto legal, nenhuma referência a "segunda língua oficial do Brasil". O reconhecimento existe e é importante — mas tem uma descrição específica e precisa.
"Reconhecida por lei" e "idioma oficial" não são sinônimos. A Libras foi reconhecida oficialmente por uma lei federal — e isso tem peso jurídico real. Mas idioma oficial do Brasil, no sentido constitucional, é a língua portuguesa. Usar "oficial" como atalho para "reconhecida" é o que gera a confusão.
Por que a confusão acontece
A frase "segunda língua oficial" não nasce de má-fé. Há pelo menos três caminhos comuns que levam a ela:
Muita gente usa "oficializada" como sinônimo de "reconhecida por lei". A Libras foi, sim, reconhecida oficialmente. Mas no vocabulário jurídico, idioma oficial tem sentido mais restrito — e é o que a Constituição reserva ao português.
Campanhas de divulgação e materiais institucionais às vezes comprimem a informação em uma frase curta e acabam imprecisas. A intenção é valorizar a Libras — o efeito colateral é um dado incorreto circulando com aparência de fato.
Na legislação sobre educação bilíngue, aparece o conceito de "português escrito como segunda língua para surdos". Essa é uma referência educacional e linguística — não uma declaração de idioma oficial nacional.
Uma vez que a frase entra em circulação em fontes com aparência de autoridade, ela se repete. Quem copia não verifica a lei. Quem lê não questiona. O erro se consolida com o tempo.
Libras como primeira língua: em qual contexto?
Existe uma situação em que a legislação fala em "primeira língua" e "segunda língua" envolvendo a Libras e o português. Mas ela diz respeito a um contexto específico: a educação bilíngue de surdos.
A Lei nº 14.191/2021 define a educação bilíngue de surdos como modalidade educacional oferecida em Libras, como primeira língua, e em português escrito, como segunda língua, para estudantes surdos que optam por essa modalidade. O Decreto nº 5.626/2005 também aborda o ensino de Libras e da modalidade escrita do português como segunda língua para alunos surdos.
Esse é um conceito linguístico e pedagógico — aplicado a sujeitos específicos, em contextos educacionais específicos. Não transforma a Libras em segunda língua oficial do país. São planos diferentes: o do reconhecimento linguístico na educação e o do idioma oficial nacional.
A lei define a modalidade como educação escolar em Libras como primeira língua e em português escrito como segunda língua, para educandos optantes. Esse é um direito educacional importante — mas a expressão "segunda língua" aqui se refere à organização pedagógica de um grupo específico, não à definição de idioma oficial da República.
Não ser idioma oficial não diminui a Libras
Este é o ponto mais importante do texto: corrigir a frase não é atacar a Libras. É o contrário.
A importância da Libras não depende de uma frase imprecisa. Ela é uma língua usada por comunidades surdas brasileiras, com gramática própria, valor cultural, função educacional e papel direto no acesso a direitos. O bilinguismo de pessoas surdas — com Libras e português — é uma realidade linguística reconhecida e apoiada por lei. Isso não precisa ser distorcido para ter peso.
Usar a frase certa não diminui o reconhecimento da Libras. Pelo contrário — mostra que quem escreve sobre o tema o trata com seriedade.
Valorizar a Libras também é falar dela com precisão. Reconhecimento legal não precisa virar mito para ser importante.
Como escrever melhor
Há formas mais precisas — e igualmente valorizadoras — de falar sobre a Libras em textos institucionais, materiais educativos e comunicações públicas:
"Libras é a segunda língua oficial do Brasil."
"A Libras é reconhecida pela Lei nº 10.436/2002 como meio legal de comunicação e expressão."
"Na educação bilíngue de surdos, a Libras pode ser a primeira língua e o português escrito, a segunda."
"A Libras é uma língua visual-motora, com estrutura gramatical própria, reconhecida legalmente no Brasil."
Por que a precisão importa em acessibilidade
Quando um material diz apenas que a Libras é "segunda língua oficial", ele pode parecer inclusivo — e continuar sem oferecer intérprete, janela de Libras, atendimento acessível, legenda, transcrição ou profissionais qualificados. Uma frase bem-intencionada não substitui escolhas concretas.
Usar termos corretos ajuda empresas, escolas, eventos e órgãos públicos a planejar melhor. Quem entende que Libras é uma língua com usuários reais e necessidades específicas tende a pensar em recursos concretos. Quem para na frase bonita, não.
A LBI — Lei Brasileira de Inclusão — define acessibilidade como condição para acesso com segurança e autonomia, reconhecendo a comunicação em sentido amplo: Libras, visualização de textos, dispositivos multimídia e tecnologias da informação. Precisão terminológica e acessibilidade concreta andam juntas.
Checklist rápido para revisar seu conteúdo sobre Libras
Se você produz conteúdo sobre Libras ou acessibilidade, vale checar:
Libras é língua — com gramática, estrutura e comunidade de falantes. Chamar de "linguagem" é uma imprecisão que diminui seu estatuto linguístico.
A expressão está errada e é considerada ofensiva pela comunidade surda. Pessoas surdas não são mudas — muitas usam voz. O correto é "pessoa surda" ou "surdo".
Libras não é o português em gestos. Ela tem gramática visual-motora, usa o espaço e as expressões faciais e é linguisticamente independente do português.
A Libras é reconhecida por lei como meio de comunicação e expressão. Idioma oficial do Brasil, no sentido constitucional, é a língua portuguesa. São reconhecimentos distintos.
Se o contexto é acessibilidade, citar a lei não basta. Quais recursos estão disponíveis? Intérprete, janela de Libras, legenda revisada, transcrição, materiais bilíngues?
Toda afirmação legal deve poder ser verificada. Planalto.gov.br, Diário Oficial e textos consolidados de lei são fontes confiáveis para quem escreve sobre Libras e acessibilidade.
Corrigir é uma forma de respeitar
A pergunta não é se a Libras merece importância. Ela merece — e tem. A questão é falar sobre essa importância com responsabilidade. A Libras não precisa de uma frase juridicamente imprecisa para ser reconhecida como língua, como direito e como instrumento de acesso.
Quando um material, uma campanha ou uma apresentação corrige a frase e usa as palavras certas, ela demonstra que trata o tema com seriedade — e que vai além da aparência de inclusão.
A LIBRAS.SE apoia empresas, instituições e produtores de conteúdo na criação de materiais acessíveis com Libras, legendas, orientação técnica e linguagem adequada para cada contexto.
Fale com a LIBRAS.SE →