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Cultura

Bilinguismo

Abordagem educacional que reconhece a Libras como primeira língua do surdo e o português escrito como segunda língua. Base do movimento surdo brasileiro e respaldada pelo Decreto 5.626/2005.

Definição

Bilinguismo é a abordagem educacional e social que reconhece a Libras como primeira língua (L1) do surdo e o português escrito como segunda língua (L2). É a perspectiva adotada pelo movimento surdo brasileiro e respaldada legalmente pelo Decreto 5.626/2005, que determinou a educação bilíngue como modelo para estudantes surdos.

Fonte: Quadros, 1997; Decreto 5.626/2005

O que é bilinguismo para surdos?

O bilinguismo para surdos parte da premissa de que a Libras é a língua natural do surdo, aquela que ele adquire de forma espontânea quando exposto a ela desde cedo. O português, por sua vez, é aprendido como segunda língua, principalmente em sua modalidade escrita.

Essa abordagem difere do bilinguismo típico de ouvintes de uma forma importante: as duas línguas envolvidas são de modalidades diferentes. A Libras é uma língua visual-espacial; o português é uma língua oral-auditiva (na fala) e gráfica (na escrita). O surdo bilíngue não precisa dominar a fala oral do português, mas sim sua forma escrita.

O bilinguismo não é apenas uma metodologia pedagógica: é uma postura política e cultural que reconhece a surdez como diferença linguística e cultural, não como deficiência a ser corrigida.

Libras como primeira língua (L1)

A Libras é considerada L1 dos surdos porque é a língua que corresponde à sua modalidade sensorial natural: a visão. Assim como ouvintes adquirem uma língua oral de forma espontânea e não consciente quando expostos a ela, surdos adquirem a Libras naturalmente quando expostos a usuários fluentes.

A exposição precoce à Libras é fundamental. Pesquisas mostram que surdos expostos à Libras desde o nascimento desenvolvem todas as competências linguísticas esperadas para sua faixa etária. Já surdos privados de acesso à língua de sinais nos primeiros anos tendem a apresentar dificuldades linguísticas duradouras em ambas as línguas.

O ideal é que filhos surdos de pais ouvintes (cerca de 95% dos surdos) sejam expostos à Libras o mais cedo possível, seja pelos próprios pais (que podem aprender Libras), seja por contato com a comunidade surda.

Português escrito como segunda língua (L2)

Na abordagem bilíngue, o português é ensinado ao surdo como L2, com metodologias próprias para esse contexto. Isso significa que o português não é a base do processo de ensino, nem o principal meio de comunicação na sala de aula.

Características do ensino de português como L2 para surdos:

  • Foco na modalidade escrita, não na fala oral
  • Uso da Libras como língua de instrução, não do português
  • Reconhecimento de que erros gramaticais em português são esperados e revelam transferência da estrutura da Libras
  • Comparação entre as estruturas das duas línguas como ferramenta pedagógica

Educação bilíngue versus educação inclusiva

Um dos debates mais relevantes na educação de surdos no Brasil é a tensão entre o modelo bilíngue (escolas bilíngues específicas para surdos) e o modelo de educação inclusiva (surdos em escolas regulares, com TILS).

Escola bilíngue para surdos

A Libras é a língua de instrução. Há professores surdos e ouvintes bilíngues. O ambiente permite interação natural em Libras entre pares, fundamental para o desenvolvimento linguístico e identitário do aluno surdo.

Educação inclusiva

O surdo estuda com ouvintes, com o apoio de um TILS em sala. Apesar de garantir a acessibilidade comunicativa, esse modelo coloca o surdo em situação de minoria linguística na própria sala de aula e pode limitar sua participação social e acadêmica plena.

O movimento surdo brasileiro, representado pela FENEIS, defende a escola bilíngue como o modelo que melhor respeita o direito linguístico e cultural do surdo.

O Decreto 5.626 e o bilinguismo

O Decreto 5.626/2005, que regulamentou a Lei 10.436/2002 (Lei de Libras), é o principal marco legal do bilinguismo para surdos no Brasil. Ele estabelece:

  • A Libras como língua de instrução nas escolas
  • O português escrito como segunda língua para surdos
  • A inclusão de Libras como disciplina curricular obrigatória em cursos de licenciatura e fonoaudiologia
  • A formação de professores bilíngues (Libras/Português)
  • A criação de escolas e classes bilíngues

O decreto também regulamentou a formação e atuação dos TILS, diretamente relacionada à execução da política bilíngue.

Escola bilíngue: como funciona

Uma escola bilíngue para surdos apresenta características distintas das escolas regulares:

  • A Libras é a língua de comunicação e instrução em todas as disciplinas
  • Professores e funcionários são bilíngues (Libras/Português)
  • Há professores surdos como modelos linguísticos e culturais para os alunos
  • O português escrito é ensinado como disciplina específica, com metodologia de L2
  • A identidade surda e a cultura surda são valorizadas e transmitidas

O Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), no Rio de Janeiro, é a principal instituição federal de referência em educação bilíngue para surdos no Brasil.

Desafios e perspectivas atuais

Apesar dos avanços legais, o bilinguismo pleno ainda enfrenta desafios significativos no Brasil:

  • Escassez de professores bilíngues formados, especialmente fora dos grandes centros
  • Políticas públicas que privilegiam a inclusão em escolas regulares em vez das escolas bilíngues
  • Falta de acesso precoce à Libras para bebês surdos de famílias ouvintes
  • Tensão entre abordagens médicas (como o implante coclear) e a perspectiva cultural surda
  • Demanda por mais conteúdos educacionais em Libras em todos os níveis de ensino

O avanço das tecnologias digitais, incluindo a produção de vídeos com janela de Libras e plataformas de ensino acessíveis, representa uma oportunidade importante para expandir o acesso à educação bilíngue de qualidade.


Perguntas frequentes sobre Bilinguismo

É a abordagem que reconhece a Libras como língua natural e primeira língua (L1) do surdo, e o português escrito como segunda língua (L2). Difere do bilinguismo de ouvintes pois as duas línguas são de modalidades diferentes: visual e oral/escrita.

Na escola bilíngue, a Libras é a língua de instrução e há professores surdos, respeitando a língua natural do aluno. Na escola inclusiva, o surdo estuda com ouvintes com apoio de intérprete, podendo comprometer a qualidade educacional e o desenvolvimento identitário.

Não é uma obrigação individual, mas o Decreto 5.626/2005 estabelece o bilinguismo como modelo pedagógico para a educação de surdos, reconhecendo o direito do surdo de ser educado em Libras como sua língua natural.

Quanto mais cedo, melhor. A aquisição da Libras como L1 deve ocorrer o mais cedo possível, idealmente na primeira infância, pois o período crítico de aquisição de linguagem se aplica às línguas de sinais assim como às orais.

Fontes e referências

  • Quadros, R. M. (1997). Educação de Surdos: A aquisição da linguagem. Artmed.
  • Decreto 5.626/2005 – Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002.
  • FENEIS – Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos.
  • Skliar, C. (1998). A surdez: um olhar sobre as diferenças. Mediacão.

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