Pessoa com perda auditiva severa ou profunda. Na perspectiva socioantropológica adotada pelo movimento surdo, Surdo (com S maiúsculo) identifica uma pessoa com identidade cultural e linguística própria, usuária da Libras, pertencente à comunidade surda, não definida pela deficiência mas pela diferença cultural.
Fonte: Strobel, 2008; Padden & Humphries, 2005
O que é ser surdo? Perspectivas distintas
A surdez pode ser compreendida a partir de dois grandes paradigmas. A perspectiva clínica-auditológica define o surdo pela ausência ou limitação da função auditiva, tratando a surdez como uma condição médica a ser corrigida ou reabilitada.
Já a perspectiva socioantropológica, defendida pelo movimento surdo organizado, entende a surdez como uma diferença cultural e linguística. Nessa visão, o surdo não é alguém que perdeu algo, mas alguém que pertence a uma comunidade com língua, cultura e identidade próprias.
Dessa distinção nasce a convencão do S maiúsculo: surdo (minúsculo) descreve a condição auditológica; Surdo (maiúsculo) descreve a identidade cultural e a pertencça à comunidade surda.
O S maiúsculo foi popularizado por pesquisadores como Carol Padden e Tom Humphries e adotado amplamente no campo dos Estudos Surdos a partir dos anos 1980.
Terminologia correta: surdo, Surdo ou deficiente auditivo?
A escolha da terminologia não é trivial: ela reflete uma posição política e filosófica sobre a surdez. O termo deficiente auditivo, embora ainda usado em contextos médicos e legais, é rejeitado por grande parte da comunidade surda porque centraliza a ideia de falta e déficit.
Os termos surdo e pessoa surda são os preferidos pelo movimento surdo brasileiro. A FENEIS e entidades de representação da comunidade surda advogam consistentemente por esse uso.
Algumas distinções práticas:
- Surdo (minúsculo): condição auditológica, grau de perda auditiva
- Surdo (maiúsculo): identidade cultural, membro da comunidade surda, usuário de língua de sinais
- Deficiente auditivo: termo médico-legal, evitar em contextos culturais
- Mudo ou surdo-mudo: termos incorretos e ofensivos; surdos não são mudos
Identidade surda
A identidade surda é construda na relação com a língua de sinais, com a comunidade surda e com a cultura surda. Ela não é umánime: pesquisadores como Perlin (1998) identificam diferentes formas de identidade surda.
Formas de identidade surda
- Identidade surda: plena identificação com a cultura surda e a Libras
- Identidade híbrida: transição entre dois mundos, ouvinte e surdo
- Identidade flutuante: não se identifica plenamente nem com a cultura surda nem com a ouvinte
- Identidade bicultural: navega com facilidade entre a cultura surda e a ouvinte
A construção da identidade surda frequentemente ocorre no contato com outros surdos, especialmente em escolas ou associações de surdos, onde a Libras é a língua da comunidade.
Surdez e linguagem
A aquisição de linguagem é fundamental para o desenvolvimento cognitivo, social e identitário de qualquer ser humano. Para crianças surdas, a Libras é a língua de acesso natural.
Pesquisas em neurociência e linguística demonstram que crianças surdas expostas à língua de sinais desde cedo desenvolvem plenamente as mesmas capacidades cognitivas e linguísticas que crianças ouvintes com sua língua oral. A privação linguística, ao contrário, causa danos cognitivos documentados.
Crianças surdas filhas de pais surdos, com acesso pleno à Libras desde o nascimento, atingem marcos de desenvolvimento linguístico equivalentes aos de crianças ouvintes.
Essa compreensão fundamenta a abordagem do bilinguismo: Libras como primeira língua (L1) e português escrito como segunda língua (L2).
Surdez e comunicação
Ao longo da história da educação de surdos, três abordagens principais se confrontaram:
- Oralismo: busca ensinar o surdo a falar e fazer leitura labial, proibindo ou desencorajando o uso de língua de sinais. Dominante entre o Congresso de Milão (1880) e os anos 1980.
- Comunicação total: usa todos os recursos disponíveis, combinando fala, sinais, alfabeto manual e outros recursos. Considerada uma abordagem intermediária.
- Bilinguismo: reconhece a língua de sinais como primeira língua e o português como segunda. É a abordagem defendida pela FENEIS e pelo movimento surdo brasileiro.
Atualmente, o bilinguismo é a abordagem recomendada pelos principais pesquisadores e pela legislação brasileira, incluindo o Decreto 5.626/2005.
Legislação e direitos da pessoa surda
A legislação brasileira avançou significativamente no reconhecimento dos direitos das pessoas surdas:
- Lei 10.436/2002: reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão da comunidade surda brasileira
- Decreto 5.626/2005: regulamenta a Lei 10.436, estabelecendo diretrizes para educação bilingüe, formação de intérpretes e acessibilidade em serviços públicos
- LBI (Lei 13.146/2015): Lei Brasileira de Inclusão garante acessibilidade em diversas áreas, incluindo conteúdos audiovisuais com janela de Libras
Esses marcos legais asseguram o direito à educação bilingüe, ao acesso a serviços públicos em Libras e à contratação de intérpretes em contextos formais.
Diversidade na surdez
A experiência da surdez é altamente diversa. Não existe um único perfil de pessoa surda:
- Graus de perda auditiva: leve, moderado, severo, profundo. Apenas surdos com perda severa ou profunda são tipicamente chamados de surdos; os demais podem ser chamados de deficientes auditivos, embora o termo seja debatido.
- Surdos oralizados: surdos que aprenderam a se comunicar oralmente e podem não usar Libras habitualmente
- Usuários de implante coclear: o implante pode proporcionar percepção auditiva, mas a relação com a identidade surda varia enormemente entre os indivíduos
- Surdos de famílias ouvintes: a grande maioria dos surdos (cerca de 90%) nasce em famílias ouvintes, o que molda fortemente a experiência da aquisição de linguagem
Essa diversidade é reconhecida dentro da própria comunidade surda, que, apesar das diferenças, une-se em torno da língua de sinais e da cultura compartilhada.