Intérpretes de Libras traduzem partos para pais surdos
No Rio de Janeiro, duas mães surdas conseguiram viver o nascimento dos filhos por inteiro graças à presença de intérpretes de Libras na hora do parto.

A lei que reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão determina que os serviços públicos de saúde devem garantir atendimento adequado às pessoas surdas. Num Brasil inclusivo ideal, haveria intérpretes e tradutores da Língua Brasileira de Sinais em cada unidade de saúde do país. Por enquanto, a realidade é outra, mas pelo menos duas mães surdas conseguiram estar inteiras no nascimento dos filhos, graças à presença de intérpretes na hora do parto.
Débora Lino Cardoso e Jéssica da Costa Vicente não se conhecem, mas têm muito em comum. As duas moram no estado do Rio de Janeiro, acabaram de ter o quarto filho e, pela primeira vez, conseguiram viver completamente o parto porque contaram com quem traduzisse todo o procedimento para Libras. Elas vivem em Angra dos Reis e em São Gonçalo, respectivamente, e tiveram o direito à acessibilidade garantido.
"Me senti mais segura"
Gustavo nasceu no Hospital Maternidade de Angra dos Reis (RJ). É o quarto filho de Débora Lino Cardoso, que é surda e teve auxílio da intérprete Thayane Camilo, servidora da Central de Intérpretes da prefeitura do município.
"Foi muito importante, porque nos meus outros partos eu nem sabia o que estava acontecendo, nem com o que estava sendo medicada. Isso me deixava muito nervosa. Com a presença da intérprete, me senti mais segura", relatou a mãe, em Libras.

A intérprete Thayane Camilo acompanha Débora e o pai, Nélson, durante o parto em Angra dos Reis (RJ).
O pai, Nélson Guedes, também é surdo, e fez questão de expressar a alegria do momento. "Estou muito feliz por ter tido acessibilidade por completo. No nascimento do meu outro filho, não pude acompanhar, pois tive que optar entre mim e uma intérprete solidária para ajudar na comunicação", contou.
A emoção tomou conta também da intérprete. Esta foi a primeira vez que Thayane trabalhou em um parto. "Atuo como intérprete desde os meus 17 anos, na educação, no setor administrativo, no judiciário, até em consulta médica, mas em parto foi a primeira vez. É emocionante saber que a mãe teve plena consciência de tudo, em todos os estágios. Fazer parte deste momento foi muito gratificante", disse. Em Angra dos Reis, a Central de Intérpretes de Libras e Guias intermedia a comunicação entre surdos e surdocegos nos setores públicos da cidade desde 2020.
Do pré-natal ao nascimento
Na Maternidade Municipal Mário Niajar, em São Gonçalo (RJ), Jéssica da Costa Vicente se emocionou ao receber a descrição de que Pietro tinha chegado ao mundo. O parto foi acompanhado e interpretado pela profissional Raquel Gonçalves Varella, da prefeitura.

Na sala de cirurgia, a intérprete traduz cada etapa do parto para a mãe surda Jéssica.
"Meus últimos partos foram sem intérprete: tive que levar tudo escrito e não soube o que acontecia durante a internação e a cirurgia. Hoje, estou muito feliz por fazer o parto com intérprete. Fico muito mais tranquila", contou a mãe.
Raquel acompanhou a gestação de Jéssica desde o pré-natal e disse ter vivido um dos momentos mais emocionantes da carreira. "Ela estava ali sem ver e sem ouvir o que estava acontecendo. Quando avisei que ele tinha nascido e estava bem, chorando, ela se emocionou e também chorou. É muito gratificante poder passar isso para ela", relatou.
Fonte: Equipe LIBRAS.SE, com Prefeitura de Angra dos Reis e O São Gonçalo.
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