O que é Libras? Libras é a Língua Brasileira de Sinais, uma língua visual-espacial: é produzida com as mãos, o rosto e o corpo, é percebida pela visão e tem gramática própria, independente do português. A Lei nº 10.436/2002 reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão das comunidades surdas do Brasil.
A língua que você talvez não conheça ainda
O Brasil fala, escreve, digita e também sinaliza. A Língua Brasileira de Sinais, a Libras, é a língua usada principalmente pela comunidade surda no Brasil. Não é um código secreto. Não é português com as mãos. Não é mímica. É uma língua de verdade: com gramática, história, cultura e papel central na vida de milhões de pessoas.
Você provavelmente já viu alguém sinalizando em um vídeo, em um evento ou na televisão. A primeira impressão costuma ser a de que aquilo é uma tradução palavra por palavra do português. Mas a estrutura é diferente, a lógica é diferente, e a língua é diferente, no bom sentido.
Entender o que é Libras é o primeiro passo para compreender por que ela importa. E ela importa muito.
O que é Libras
Libras é a Língua Brasileira de Sinais: uma língua visual-espacial, percebida pelos olhos e produzida com mãos, rosto, corpo e movimento. Ela tem vocabulário, gramática, sintaxe e estrutura próprios, independentes do português.
O termo correto é Língua Brasileira de Sinais, não "linguagem de sinais". A diferença não é apenas semântica: enquanto "linguagem" descreve qualquer sistema de comunicação (linguagem dos pássaros, linguagem de programação), "língua" se refere a um sistema linguístico natural, com gramática, fonologia e capacidade plena de expressão humana. A Libras é, portanto, uma língua, e merece ser tratada como tal.
Reconhecida por lei
A Lei nº 10.436/2002 reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão e define que ela é "a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constituem um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos". É a base jurídica do direito linguístico da comunidade surda brasileira.
Uma língua construída com parâmetros
Cada sinal em Libras é formado por elementos específicos chamados parâmetros. Mudar qualquer um deles pode mudar completamente o significado do sinal, assim como trocar uma letra em uma palavra escrita altera o sentido. Esses parâmetros mostram que Libras tem estrutura, regras e precisão linguística.
Configuração de Mão (CM)
A forma que a mão assume ao produzir um sinal. São dezenas de configurações possíveis, e cada uma contribui para o significado do gesto.
Ponto de Articulação (PA)
O local do corpo ou do espaço onde o sinal é realizado, frente ao rosto, no peito, na altura da cintura. A posição muda o sentido.
Movimento
A trajetória, direção e velocidade do sinal no espaço. Alguns sinais são estáticos; outros exigem movimentos específicos que fazem parte do significado.
Expressão Não-Manual (ENM)
O rosto, os olhos, o corpo. As expressões faciais e corporais não são enfeite, elas marcam perguntas, negações, intensidade e emoção na frase.
Orientação da Palma
A direção para a qual a palma da mão aponta durante o sinal. Uma pequena virada pode indicar negação, reflexividade ou outra variação de sentido.
Espaço de Sinalização
Não é um parâmetro, mas o palco de todos eles: a área à frente do corpo onde os sinais são produzidos. O espaço é usado gramaticalmente para organizar pessoas, objetos e referências na frase.
Libras não é mímica
Mímica tenta imitar uma ideia de forma visual, geralmente improvisada e sem regra fixa. Libras é diferente: cada sinal tem parâmetros definidos, e a troca de qualquer um deles pode mudar o significado da palavra.
Além disso, as expressões não-manuais, o rosto, o olhar, os movimentos de cabeça e ombros, fazem parte da gramática da língua. Uma pergunta de resposta sim/não tem uma expressão facial específica. Uma oração condicional tem outra. Uma intensidade diferente muda a forma como o rosto acompanha o sinal.
Aprender Libras não é decorar gestos avulsos. É aprender uma língua com lógica própria, assim como aprender inglês não é "traduzir o português para inglês palavra por palavra".
Libras e português são línguas diferentes. Assim como o inglês não é "português traduzido letra por letra", a Libras não é português executado com as mãos.
Libras não é português com as mãos
O português é uma língua oral-auditiva: é produzida com a fala e percebida pelos ouvidos. A Libras é uma língua visual-espacial: produzida com mãos, rosto e corpo, percebida pelos olhos. As duas têm estruturas gramaticais diferentes.
Em Libras, a ordem dos elementos na frase pode seguir uma lógica diferente do português. O uso do espaço de sinalização organiza as referências. As marcações gramaticais não são feitas por palavras escritas, mas por movimentos, posições e expressões.
Isso tem implicações diretas na educação. Na perspectiva do bilinguismo aplicado à surdez, a Libras é reconhecida como primeira língua para muitas pessoas surdas, e o português escrito, como segunda língua. Não é hierarquia: é respeito à língua natural de cada pessoa.
Educação bilíngue de surdos
A Lei nº 14.191/2021 incluiu a modalidade de educação bilíngue de surdos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Ela define essa modalidade como a que se realiza em Libras como primeira língua e em português escrito como segunda língua. Esse reconhecimento reforça que a Libras não é um recurso auxiliar na educação, é a língua de instrução.
Uma breve história da Libras no Brasil
A Libras não foi criada por um decreto. Ela se desenvolveu a partir do uso real: na escola, nas famílias, nos encontros da comunidade surda. Mas a história tem marcos importantes que ajudam a entender como chegamos até aqui.
E. Huet propõe uma escola para surdos
O professor surdo francês E. Huet envia ao imperador Dom Pedro II um relatório propondo a criação de um colégio para surdos no Rio de Janeiro. Em 1856, com apoio do Império, começa a funcionar sob sua direção o Collégio Nacional para Surdos-Mudos.
Fundação da primeira escola de surdos no Brasil
Em 26 de setembro de 1857, a Lei nº 939 cria oficialmente no Rio de Janeiro o Imperial Instituto de Surdos-Mudos, hoje Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). A escola se tornou o principal espaço de desenvolvimento e transmissão da língua de sinais no país.
A língua cresce com a comunidade
A Libras se desenvolveu por décadas fora dos currículos oficiais, nas escolas de surdos, nas associações, nas famílias. A influência da Língua de Sinais Francesa se mesclou com sinais já usados por surdos brasileiros, formando uma língua própria.
Reconhecimento oficial da Libras
A Lei nº 10.436 reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão. Um marco jurídico histórico para os direitos da comunidade surda.
Decreto nº 5.626 regulamenta a lei
O Decreto nº 5.626/2005 detalha a formação de professores de Libras, tradutores e intérpretes (TILS), o uso da Libras na educação e o acesso de pessoas surdas a serviços públicos.
Educação bilíngue na LDB
A Lei nº 14.191 incorpora a educação bilíngue de surdos à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, consolidando a Libras como língua de instrução e não apenas como recurso de suporte.
O reconhecimento legal da Libras
Reconhecer a Libras em lei foi um avanço fundamental. Mas o reconhecimento jurídico só tem valor quando vem acompanhado de aplicação prática: intérpretes qualificados, materiais acessíveis, políticas públicas e espaços que incluam de verdade.
Lei nº 10.436/2002, Reconhecimento da Libras
Reconhece a Língua Brasileira de Sinais como meio legal de comunicação e expressão, com estrutura gramatical própria. A própria lei ressalva que a Libras não substitui a modalidade escrita da língua portuguesa. É a base legal do direito linguístico da comunidade surda.
Decreto nº 5.626/2005, Regulamentação
Regulamenta a Lei de Libras com detalhes sobre a formação de professores, a certificação de tradutores e intérpretes de Libras, o uso da Libras na educação básica e superior, e o acesso de pessoas surdas a serviços públicos com interpretação simultânea.
Lei nº 14.191/2021, Educação bilíngue na LDB
Inseriu a modalidade de educação bilíngue de surdos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, definindo a Libras como primeira língua e o português escrito como segunda. Garantiu também que escolas bilíngues de surdos são reconhecidas como instituições de ensino com características próprias, não como adaptações do ensino regular.
Quem usa Libras?
A Libras é usada principalmente por pessoas surdas no Brasil, mas não apenas por elas. Qualquer pessoa pode aprender e usar Libras, e quando mais pessoas a usam, mais natural se torna a comunicação em contextos inclusivos.
Pessoas surdas e surdocegas
A Libras é a língua principal de grande parte da comunidade surda brasileira. Para muitas pessoas surdas, ela é a primeira língua, aprendida naturalmente desde a infância, especialmente quando a família ou a escola a oferece.
Familiares e pessoas próximas
Pais, irmãos, parceiros, amigos de pessoas surdas que aprendem Libras para se comunicar com quem mais importa. O aprendizado em família fortalece os vínculos e amplia o acesso da criança surda à língua.
Professores e educadores
Profissionais da educação que atuam em escolas com alunos surdos ou em classes bilíngues. O Decreto nº 5.626/2005 estabelece diretrizes para a formação de professores de Libras nas redes de ensino.
Intérpretes (TILS) e empresas
Tradutores e intérpretes de Libras atuam em escolas, eventos, serviços públicos, tribunais, hospitais e produções audiovisuais. Empresas e instituições que incluem a Libras em seus canais ampliam o alcance dos seus serviços.
Libras é comunicação, autonomia e pertencimento. Quando ela está presente, mais pessoas entendem, participam e pertencem.
Por que Libras é importante?
Para muitas pessoas surdas, a Libras é o caminho mais natural para acessar informação, educação, cultura e convivência social. Sem ela, a comunicação pode se tornar uma barreira constante. Com ela, uma aula, uma consulta médica, uma reunião de trabalho, um vídeo institucional ou uma notícia se tornam acessíveis.
A importância da Libras vai além da acessibilidade técnica. Ela carrega identidade cultural, modos de ver o mundo e formas de expressão que pertencem à comunidade surda. Falar de Libras é falar de direito linguístico, cidadania e respeito. Também é falar da Lei Brasileira de Inclusão (LBI), que reforça o direito de comunicação em língua de sinais em serviços de saúde, educação, trabalho e cultura.
Libras é universal?
Não. Esse é um dos mitos mais comuns sobre línguas de sinais. Cada país, e, em muitos casos, cada região, tem sua própria língua de sinais, desenvolvida historicamente pela sua comunidade surda local.
Nos Estados Unidos existe a ASL (American Sign Language). Na França, a LSF (Langue des Signes Française). Em Portugal, a Língua Gestual Portuguesa. Na Argentina, a Lengua de Señas Argentina. São línguas distintas, com vocabulário, gramática e cultura próprias, e nenhuma delas é intercambiável com a Libras.
Assim como o português falado em Fortaleza tem diferenças em relação ao de Porto Alegre, a Libras também tem variações regionais. Alguns sinais mudam de acordo com o estado, a cidade, a geração ou o contexto da comunidade surda local. Isso não é erro, é uma característica natural de qualquer língua viva.
Libras e legenda: recursos diferentes
Libras e legenda não são equivalentes, e entender essa diferença é essencial para criar conteúdos verdadeiramente acessíveis.
A legenda apresenta o conteúdo em português escrito. Ela é muito importante para diversas pessoas: pessoas surdas oralizadas, pessoas com deficiência auditiva, quem está em ambiente sem som, ou quem simplesmente prefere acompanhar o texto. A Legenda para Surdos e Ensurdecidos (LSE) vai além da transcrição e inclui informações sonoras do contexto.
Mas para muitas pessoas surdas sinalizantes, a Libras é a primeira língua. Nesse caso, a janela de Libras oferece acesso mais completo e natural ao conteúdo do que o texto escrito em português. O ideal, em muitos materiais audiovisuais, é combinar recursos: Libras, legenda descritiva e audiodescrição, de acordo com o público e o objetivo do conteúdo.
Onde a Libras aparece na prática
A presença da Libras cresce em vídeos com janela de Libras, em eventos com intérpretes, em escolas bilíngues, em universidades, em atendimentos públicos, em campanhas institucionais, em conteúdos das redes sociais, em programas de televisão e em serviços de saúde, cultura e turismo. No meio digital, a Libras é cada vez mais necessária: parte da população brasileira se comunica prioritariamente em uma língua visual, e os conteúdos precisam alcançar essas pessoas.
Libras é língua, cultura, história e direito. Quando ela está presente, mais pessoas participam, entendem e pertencem. Uma sociedade que se comunica melhor também inclui melhor.
Entender o que é Libras é, antes de tudo, reconhecer que a comunicação não precisa acontecer de uma única forma. O Brasil se expressa de muitos modos, e a Libras é um deles. Respeitar essa língua, dar espaço a ela em vídeos, eventos, escolas e serviços é reconhecer que a inclusão começa pela comunicação.
Quer saber mais? Consulte nosso Glossário de termos da área, explore os sinais no Vocabulário ou aprenda brincando no Joguinho de Libras.
Créditos e referências
Texto: Equipe LIBRAS.SE, com informações da legislação federal, do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), da ONU e do Instituto Locomotiva.
- Presidência da República. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002 (reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão).
- Presidência da República. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005 (regulamenta a Lei de Libras).
- Presidência da República. Lei nº 14.191, de 3 de agosto de 2021 (inclui a educação bilíngue de surdos na LDB).
- Presidência da República. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015 (Lei Brasileira de Inclusão).
- Instituto Nacional de Educação de Surdos. Competências e base jurídica (criação do instituto pela Lei nº 939, de 26 de setembro de 1857). Consultado em outubro de 2026.
- Revista Espaço (INES). Solange Maria da Rocha. Dados recentes sobre o fundador do instituto, E. Huet. N. 31, janeiro a junho de 2009.
- Revista Diálogos (UFMT). Fábio Vieira de Souza Júnior e Vinícius Carvalho Pereira. Panorama das principais estruturas formacionais da Língua Brasileira de Sinais (os parâmetros da Libras). 2024.
- Nações Unidas. International Day of Sign Languages (mais de 300 línguas de sinais no mundo). Consultado em outubro de 2026.
- Brasil 61. Brasil tem 10,7 milhões de pessoas com deficiência auditiva (pesquisa do Instituto Locomotiva com a Semana da Acessibilidade Surda). Março de 2021.
- Imagem: banco de imagens da LIBRAS.SE.
Perguntas frequentes sobre Libras
As dúvidas mais comuns sobre a Língua Brasileira de Sinais, respondidas de forma direta.
O que é Libras?
Libras é a Língua Brasileira de Sinais: uma língua visual-espacial com gramática própria, usada principalmente pela comunidade surda no Brasil. Ela foi reconhecida oficialmente pela Lei nº 10.436/2002 como meio legal de comunicação e expressão.
Libras é universal?
Não. Cada país tem sua própria língua de sinais, desenvolvida naturalmente por sua comunidade surda local. A ASL (American Sign Language) é diferente da Libras, assim como a Língua Gestual Portuguesa, a LSF francesa e centenas de outras línguas de sinais ao redor do mundo.
Libras é o mesmo que linguagem de sinais?
Não. O termo correto é Língua Brasileira de Sinais, e não "linguagem de sinais". Libras é uma língua natural, com gramática, fonologia e capacidade plena de expressão humana, assim como o português. "Linguagem" é um conceito mais amplo, usado para qualquer sistema de comunicação. Usar "língua" é reconhecer o status linguístico completo da Libras.
Qual lei reconhece a Libras no Brasil?
A Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão. O Decreto nº 5.626/2005 regulamentou essa lei, com regras para a formação de professores e intérpretes e para o acesso de pessoas surdas a serviços. Em 2021, a Lei nº 14.191 incluiu a educação bilíngue de surdos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).
Toda pessoa surda usa Libras?
Nem toda pessoa surda usa Libras. Existem surdos oralizados, que se comunicam predominantemente pela fala e leitura labial, e há também pessoas com diferentes graus de perda auditiva. A Libras é a língua central para grande parte da comunidade surda brasileira sinalizante, mas não é a única forma de comunicação das pessoas surdas.
Seu conteúdo precisa
chegar à comunidade surda?
A LIBRAS.SE traduz vídeos para Libras com intérpretes reais, entrega editada e pronta para publicar.
Conheça as soluções →