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Língua & Cultura · Conceito

Por que o termo "surdo-mudo" é errado

Surdos têm laringe e cordas vocais, e podem, sim, aprender a falar. Entenda por que "surdo-mudo" é um termo equivocado e o que dizer no lugar.

Por Jéssica Rodrigues Publicado em Atualizado em 5 min de leitura

Por que é errado dizer "surdo-mudo"? Porque surdez não é mudez: a pessoa surda tem a voz preservada e pode falar, oralizar ou se comunicar em Libras, que é uma língua completa. O termo correto é surdo ou pessoa surda; em textos de saúde e de lei, também se usa pessoa com deficiência auditiva.

Com certeza você já ouviu por aí, ou até falou, sem prestar atenção no significado. Mas o termo "surdo-mudo" é errado. Os surdos têm laringe, o órgão responsável pela emissão dos sons, e podem, sim, aprender a falar. Um surdo só será mudo se tiver outra condição que o impeça de emitir sons.

Ilustração sobre o uso correto de termos relacionados à surdez
A surdez, por si só, não afeta o aparelho fonador responsável pela fala.

Surdez não é mudez

A surdez, por si só, não provoca nenhuma perda no aparelho fonador. A maioria dos surdos tem as cordas vocais funcionando normalmente e poderia falar, mas pode não ter aprendido como fazê-lo. Para quem ouve, é natural repetir os sons escutados ao longo da vida; para quem não ouve, esse caminho é diferente.

Um material do Instituto Federal de Pernambuco resume bem: muitas pessoas surdas não falam porque não foram estimuladas ou não passaram por um trabalho de fonoaudiologia, e por isso a cultura surda considera o termo "surdo-mudo" errado. A Secretaria da Pessoa com Deficiência de São Paulo vai na mesma linha, em seu guia para profissionais de comunicação: "Não existe surdo-mudo, mas apenas surdo".

Entenda o conceito

Surdez é a perda auditiva. Mudez é a impossibilidade de usar o aparelho fonador. São condições distintas, e uma não implica a outra.

Surdos falam, oralizam e sinalizam

Há muitos surdos oralizados por aí. Eles desenvolvem a fala a partir do trabalho de um fonoaudiólogo e usam a fala articulada e a leitura labial para se comunicar. São pessoas que leem lábios, sabem ler, escrever e até falam, porque aprenderam a unir letras e sílabas e a interpretar as sentenças em português. Alguns usam implante coclear.

Outros são sinalizantes, com a Libras como primeira língua. E há os bilíngues, que dominam a Libras e o português. Em todos os casos, a pessoa tem uma língua. Quem se comunica em Libras não é "mudo": fala com as mãos, o rosto e o corpo, numa língua que a Lei nº 10.436/2002 reconhece como meio legal de comunicação e expressão.

Quem é a pessoa muda

A pessoa muda é aquela que não faz uso do aparelho fonador para a fala ou para qualquer manifestação vocal. Existem surdos que também são mudos, mas isso não está relacionado à surdez: são diagnósticos distintos, ainda que possam coexistir.

Surdo, pessoa surda ou pessoa com deficiência auditiva?

Os três termos estão corretos, mas não querem dizer exatamente a mesma coisa. O Decreto nº 5.626/2005 ajuda a separar as ideias:

Uma revisão publicada na revista Cadernos da Pedagogia, da UFSCar, conclui que a pessoa que não escuta, ou escuta muito pouco, e está inserida num contexto cultural surdo prefere ser chamada de surda. Na dúvida, pergunte à pessoa como ela se identifica.

E "deficiente auditivo"?

Evite usar "deficiente auditivo" como substantivo ("os deficientes auditivos"). Como explicamos no post sobre o que é capacitismo, o termo correto é pessoa com deficiência: dizer só "deficiente" reduz a pessoa à deficiência. Prefira pessoa surda ou pessoa com deficiência auditiva.

Por que "surdo-mudo" aparece em documentos antigos

O termo vem de uma concepção médica antiga, segundo a qual todo surdo seria também mudo, com o aparelho fonador malformado ou inexistente. Por isso ele aparece em leis e em nomes de instituições antigos. O Código Civil de 1916, por exemplo, considerava absolutamente incapazes "os surdos-mudos, que não puderem exprimir a sua vontade". Esse código foi substituído pelo novo Código Civil, de 2002.

A primeira escola de surdos do país, criada no Rio de Janeiro em 1857 e conhecida no Império como Imperial Instituto de Surdos-Mudos, também carregou o termo no nome por um século. Só em 1957 a Lei nº 3.198 trocou o nome do então Instituto Nacional de Surdos-Mudos para Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). A coleção histórica do próprio INES guarda títulos como "Compendio para o ensino dos surdos-mudos", de 1881, e "A surdo mudez no Brasil", de 1925.

Ao citar esses documentos, mantenha o nome original entre aspas, porque ele é histórico. Fora disso, o termo ficou para trás.

Como se referir em textos e na mídia

Vamos todos tirar o termo "surdo-mudo" do vocabulário e respeitar as individualidades de cada um.

Equipe LIBRAS.SE

Créditos e referências

Texto: Jéssica Rodrigues, com informações do IFPE, da Prefeitura de São Paulo, da revista Cadernos da Pedagogia (UFSCar), do INES e da legislação federal.

Perguntas frequentes

Por que não devo dizer "surdo-mudo"?
Porque a surdez não afeta a capacidade de falar. Surdos têm laringe e cordas vocais; muitos aprendem a falar, e quem se comunica em Libras usa uma língua completa. "Surdo-mudo" junta duas condições diferentes de forma equivocada.
Qual o termo correto?
O correto é "surdo" ou "pessoa surda". Em leis, laudos e serviços de saúde, também se usa "pessoa com deficiência auditiva". Quando a pessoa desenvolve a fala, pode-se dizer "surdo oralizado".
Todo surdo consegue falar?
Não necessariamente. A maioria tem as cordas vocais funcionando, mas falar depende de aprendizado, geralmente com apoio fonoaudiológico. Muitos surdos se comunicam por Libras, e isso é uma escolha legítima.
Posso dizer "deficiente auditivo"?
Evite usar "deficiente auditivo" como substantivo. Prefira "pessoa surda" ou "pessoa com deficiência auditiva": dizer só "deficiente" reduz a pessoa à deficiência.
Por que o INES já se chamou Instituto de Surdos-Mudos?
Porque, quando a escola foi criada, em 1857, o termo "surdo-mudo" era o usual. O nome só mudou em 1957, quando a Lei nº 3.198 transformou o Instituto Nacional de Surdos-Mudos em Instituto Nacional de Educação de Surdos.
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