O que você vai encontrar neste artigo
- Por que o português de muitas pessoas surdas é uma segunda língua
- O que é Glosa e por que ela confunde a inteligência artificial
- O que o estudo da UFLA testou e os números do resultado
- O que muda para empresas que atendem por chatbot
- Por que a IA ainda não substitui intérpretes e tradutores
Thales Douglas, professor de Libras da Universidade Federal de Lavras (UFLA), precisava resolver um problema com um contrato e pediu ajuda a uma inteligência artificial. O sistema não entendeu a pergunta, e ele teve de procurar outra pessoa. "Eu fiquei muito nervoso na hora, porque ela não estava entendendo o que eu estava pedindo, aí eu tive que perguntar outra pessoa", contou ao g1 Sul de Minas.
O relato ilustra o que uma pesquisa da própria UFLA mediu: chatbots e modelos de IA têm dificuldade para entender o português escrito por pessoas surdas que têm a Libras como primeira língua. O estudo é o mestrado em Ciência da Computação de Anna Paula Figueiredo Gonçalves, orientado pelo professor Denilson Alves Pereira e coorientado por André Pimenta Freire.
Português como segunda língua
Para muitas pessoas surdas educadas em Libras, o português é a segunda língua, aprendida sobretudo na forma escrita. É a lógica do bilinguismo: Libras primeiro, português escrito depois. "Quando elas vão escrever em português, como elas estão mais habituadas com a Libras, elas tendem a escrever como se fosse a tradução da Libras para o português", explicou Denilson ao g1.
A Libras é uma língua completa, de modalidade visual-espacial, e organiza a frase de outro jeito. O português usa artigos, preposições, conjunções e flexões que a Libras expressa por outros meios. Por isso, na escrita de quem aprendeu português como segunda língua, podem aparecer outra ordem de palavras, menos palavras de ligação e verbos no infinitivo, descreve a cartilha do Inep para participantes surdos do Enem 2026. Isso não é falta de conhecimento: a cartilha lembra que traços assim também aparecem em quem aprende outras segundas línguas. E a Libras não é um português feito com as mãos, como explica a entrevista "Libras não é português com as mãos": é outra língua, com gramática própria.
"você já comeu o biscoito de sabor banana?"
"biscoito, banana, você já comer?"
Exemplo dado por Denilson Alves Pereira ao g1: verbo no infinitivo, outra ordem, sem artigos nem preposições."Ana adotou um cachorrinho."
"Cachorrinho Ana adotou."
Exemplo da cartilha do Inep: o tópico vem antes. O Inep avisa que não é uma regra fixa.O mesmo documento faz um alerta importante: nem toda pessoa surda tem a Libras como primeira língua, e ninguém escreve igual só por ser surdo. Há quem use o português oral, quem combine as duas línguas e quem tenha trajetórias escolares muito diferentes.
O que é Glosa
A Glosa é uma forma de registrar por escrito os sinais e a estrutura da Libras, usada por intérpretes e estudantes. Ela não é um sistema oficial de escrita da Libras. No estudo, serviu como aproximação controlada do jeito como muitas pessoas surdas escrevem em português.
O que o estudo testou
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Conversas com quatro bancos
Os pesquisadores simularam conversas com os chatbots de quatro redes bancárias, escrevendo em Glosa. Com frequência, as respostas eram mensagens como "Desculpe, não entendi", segundo a UFLA.
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Seis modelos abertos, sem treino
Depois, testaram seis modelos gratuitos, que rodam no próprio computador: Qwen2.5-7B, Qwen2.5-14B, Phi-4-14B, Llama-3.1-8B, Llama-3.2-3B e Zephyr-7B. Sem treino específico, todos acertaram menos de 49%.
- 3
Uma base de 55 mil conversas
A equipe montou cerca de 55 mil conversas em formato de Glosa, geradas com o ChatGPT e o Gemini, e usou esse material para o ajuste fino (fine-tuning) dos mesmos modelos.
- 4
O resultado depois do treino
O Qwen2.5-14B chegou a 54,6% de acerto, depois de 7 horas e 48 minutos de treino. O Phi-4-14B teve o maior salto: de 0,01% para 53,6%, em 11 horas e 57 minutos.
- 5
A comparação
Para efeito de comparação, o Qwen2.5-7B, sem ajuste, acertou 68,5% em inglês e 57% em português padrão. Mesmo treinados, os modelos se saíram pior em Glosa.
"O modelo continua sendo ainda melhor se a pergunta for em português e a resposta em português."
Denilson Alves Pereira, orientador do estudo, ao g1
Por que isso confunde a IA
Um modelo de linguagem aprende com os textos que recebe no treino, e a maioria deles está em português formal. Quando chega uma frase com as mesmas palavras em outra ordem, sem artigos e com o verbo no infinitivo, o sistema tropeça. Segundo Denilson, um modelo que não foi treinado com o jeito como os surdos escrevem "vai ter dificuldade de entender essa forma de escrita, mesmo que as palavras sejam em português".
Falta matéria-prima. Como as pessoas surdas são minoria, é mais difícil encontrar textos escritos por elas, aponta a UFLA. "São necessários milhares de dados para treinar uma IA", lembra André Pimenta Freire. Wanderson Samuel, tradutor e intérprete de Libras da universidade, deu um exemplo ao g1: um advérbio de tempo pode ir para o começo da frase. São, nas palavras dele, "características da língua que se reproduzem na escrita e que a IA não tem um modelo para comparar e entender".
Os limites do estudo
Até aqui, tudo foi feito por simulação: as conversas foram traduzidas para um formato próximo da Glosa, e não escritas por pessoas surdas. "Isso é uma aproximação, mas não é o resultado real", disse Denilson ao g1. O próximo passo é testar com usuários surdos, o que esbarra num desafio: achar textos espontâneos, sem trechos copiados da internet ou escritos com ajuda de IA.
O que muda para empresas que atendem por chatbot
Para quem atende clientes por chat, o recado é direto. Se o robô só entende português formal, parte do público surdo fica de fora. "Digitalmente, ela vai ser bloqueada pela forma que ele escreve", resumiu Wanderson ao g1. Alguns caminhos que saem do estudo e dos relatos:
Treinar com a escrita real
Para Denilson, se os chatbots dos bancos usassem a técnica da pesquisa, "provavelmente eles vão ter uma melhora na hora de atender as pessoas surdas". Testar o bot com usuários surdos é o passo seguinte.
Respostas curtas e simples
Thales, que se define como bilíngue, diz ter dificuldade com respostas longas da IA: "Quanto mais simples ali for a resposta, mais fácil de entender claramente".
Saída para o atendimento humano
Quando o robô não entende, a pessoa precisa de outro caminho, como mostra o relato de Thales. Na nossa leitura, isso pede uma passagem fácil para o atendimento humano.
Libras no atendimento
"A IA precisa combinar com a língua de sinais", diz Thales. Conteúdo em Libras e intérpretes continuam sendo a forma mais direta de falar com quem tem a Libras como primeira língua.
A IA ajuda, mas não substitui o intérprete
O estudo não condena a tecnologia. Ele mostra que o treino específico melhora o resultado, e Denilson diz que os achados podem ser usados por empresas e desenvolvedores para criar produtos. Mas mostra também o tamanho do caminho: o melhor modelo acertou pouco mais da metade das vezes.
Em São Paulo, um projeto de lei sobre IA e Libras
O PL 797/2026, do deputado estadual Rafa Zimbaldi (União Brasil), protocolado na Alesp, propõe IA para traduzir Libras em tempo real, nos dois sentidos, em repartições estaduais, hospitais, clínicas, escolas e comércios. O texto diz que a ferramenta é complementar e não substitui o intérprete humano quando a lei exige o profissional ou quando o atendimento é complexo. Segundo o ABCdoABC, em setembro o projeto seguia para as comissões da Assembleia.
É um bom resumo do momento: a IA pode ampliar o acesso, mas a tradução entre Libras e português ainda depende de gente que conhece as duas línguas e a comunidade surda. O papel do intérprete de Libras segue central, e a inovação funciona melhor quando soma, como discutimos em Inovação: o caminho para avançar em acessibilidade.
Créditos e referências
Texto: Equipe LIBRAS.SE, com informações do g1 Sul de Minas, da UFLA (via Diário PcD), do Inep e do ABCdoABC.
- g1 Sul de Minas. Lorena Lemos. IA que deveria facilitar comunicação ainda cria barreiras para pessoas surdas, aponta estudo da UFLA. 1º out. 2026.
- 4 Poder. IA que deveria facilitar comunicação ainda cria barreiras para pessoas surdas, aponta estudo da UFLA (reprodução da reportagem do g1). 1º out. 2026.
- Libras Online. IA que deveria facilitar comunicação ainda cria barreiras para pessoas surdas (fonte: g1). 1º out. 2026.
- Diário PcD, com informações da Comunicação UFLA. Pesquisa avalia a eficácia de chatbots na comunicação com pessoas surdas que usam português como segunda língua. 12 ago. 2026.
- GONÇALVES, Anna Paula Figueiredo. Avaliação de modelos de linguagem para criação de chatbots para a comunicação com pessoas surdas que usam o português como segunda língua. Dissertação (Mestrado em Ciência da Computação), UFLA, 2025. Orientação de Denilson Alves Pereira e coorientação de André Pimenta Freire.
- Inep. A redação do Enem 2026: cartilha do(a) participante surdo(a) ou com deficiência auditiva. 2026.
- ABCdoABC. Gabriel de Jesus. Rafa Zimbaldi propõe IA para traduzir Libras em SP. 11 set. 2026.
Imagem
- Capa: ilustração criada com IA para a LIBRAS.SE. A pessoa retratada é um personagem fictício.
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