O que você vai encontrar neste artigo
- O que são as Línguas Indígenas de Sinais (LIS) e o que diz a nova cartilha do GT LIS
- Um mapa por região com povos e línguas citados pela cartilha e por pesquisas acadêmicas
- Por que essas línguas não são “dialetos” da Libras
- Como andam a pesquisa e a preservação
- O serviço da especialização gratuita do IFBA, com inscrições até 18 de outubro
Quando se fala em língua de sinais no Brasil, quase todo mundo pensa na Libras. Ela é a língua das comunidades surdas das cidades e a mais conhecida do país, mas não é a única. Em aldeias de várias regiões, indígenas surdos e seus parentes ouvintes conversam em línguas de sinais próprias, nascidas dentro de cada povo.
Duas notícias recentes colocaram essas línguas em evidência. Em 29 de setembro, a Feneis divulgou a 2ª edição da cartilha Línguas Indígenas de Sinais (LIS), do Grupo de Trabalho Nacional das Línguas Indígenas de Sinais (GT LIS), feita em parceria com a Funai e o Iphan. E o Instituto Federal da Bahia (IFBA) abriu uma especialização gratuita e a distância sobre o tema, com inscrições até 18 de outubro.
O que são as Línguas Indígenas de Sinais
A cartilha, publicada pela Funai em 2026, se apresenta como “pesquisa de autoria indígena”. É organizada por David Kaique Rodrigues dos Santos e Indira Simionatto Stedile Assis Moura, coordenadores gerais do GT LIS, e reúne 27 autores.
No texto, LIS é o nome do “conjunto das variedades das Línguas Indígenas de Sinais usadas pelos diversos povos indígenas do Brasil”. O GT propõe que elas sejam tratadas como línguas brasileiras, e o objetivo geral do grupo é “reconhecer, vitalizar e oficializar” essas línguas, usadas por indígenas surdos e indígenas ouvintes nas comunidades.
O material traz 47 sinais em LIS criados pelos membros indígenas do GT, em cards do professor Samuel Xavier da Costa, do povo Mura: nomes de povos, como Ka'apor, Kokama e Yanomami, e conceitos como território indígena, demarcação, parente e acessibilidade linguística.
Como a cartilha usa as palavras
- Indígenas Surdos e Indígenas Ouvintes: para o movimento indígena, diz a cartilha, “o lugar de fala é da COLETIVIDADE”: surdos e ouvintes usam e difundem as LIS juntos.
- TILIS: tradutores e intérpretes das LIS, papel parecido com o dos TILS da Libras.
- BRASLIND: termo de Waraxowo'i Maurício Tapirapé para a língua interétnica dos povos indígenas, que o GT quer ensinar por escrito aos indígenas surdos.
Compreendendo o surdo, seja ele indígena, brasileiro, como pertencente a um povo que tem uma cultura, tem uma identidade e essa identidade, no caso dos Indígenas Surdos, se consolida a partir das Línguas Indígenas de Sinais.
Santos (2024), citado na abertura da cartilha LIS
Um mapa por região
A lista junta povos e línguas citados na cartilha e em pesquisas acadêmicas, principalmente o levantamento das linguistas Priscilla Soares e Cristina Fargetti na revista Liames (Unicamp, 2022). Os nomes seguem as fontes, e as pesquisas estão em fases diferentes: algumas línguas já foram descritas, outras ainda estão sendo mapeadas.
NNorte
- Paiter Suruí · Rondônia
- Língua Indígena Paiter Suruí de Sinais (LIPSS), tema da tese de Indira Moura (Unemat, 2025).
- Sateré-Mawé · Amazonas
- Sinais de surdos de Parintins, estudados pelo pesquisador surdo Marlon Azevedo (UEA, 2015).
- Akwẽ-Xerente · Tocantins
- Sinais citados em dissertação da UFG (2016), ainda sem estudo dos parâmetros.
NENordeste
- Ka'apor · Maranhão
- Língua de sinais Ka'apor (LSKB), uma das primeiras descritas no país (Kakumasu, 1968; Ferreira Brito, 1984). Segue em uso, segundo pesquisa de 2020.
- Pataxó · Bahia
- Língua Indígena Pataxó de Sinais (LIPS), cooficial em Santa Cruz Cabrália pela Lei 776/2025.
- Potiguara · Paraíba
- Língua Indígena Potiguara de Sinais (LIPOTS), cooficial em Rio Tinto pela Lei 1.263/2026.
- Tentehar · Maranhão
- A língua indígena de sinais do povo Tentehar é tema de TCC na Universidade Estadual do Maranhão (2022).
- Xukuru do Ororubá · Pernambuco
- Pesquisa mapeia surdos do povo (Moura, 2020), mas ainda não se sabe se há uma língua de sinais própria.
COCentro-Oeste
- Terena · Mato Grosso do Sul
- Língua Indígena Terena de Sinais (LITS), cooficial em Miranda desde 2023. Descrita na tese de Priscilla Soares (Unesp, 2018), na Terra Indígena Cachoeirinha.
- Guarani Kaiowá · Mato Grosso do Sul
- Sinais registrados em aldeias de Dourados pela pesquisadora surda Shirley Vilhalva (UFSC, 2009).
SESudeste
- Xakriabá · Minas Gerais
- Língua Indígena Xakriabá de Sinais, tema de mesa-redonda de 2024 indicada pela cartilha.
SSul
- Kaingang
- Sinais Kaingang da aldeia (SKA), registrados em escola indígena (UFSC, 2008), ainda sem análise linguística aprofundada.
A lista não é completa. E um sinal para o nome de um povo, como os da cartilha, não quer dizer que exista ali uma língua de sinais já documentada.
E não são só as indígenas
O Brasil também tem línguas de sinais em comunidades rurais e cidades pequenas com muitos surdos, como a Cena, de Várzea Queimada (PI), estudada em tese da UFSC (Pereira, 2013). O Projeto Lucinda Ferreira, da Unesp, compara várias delas, como contamos no post sobre Lucinda Ferreira e os estudos sobre Libras.
Por que não são “dialetos da Libras”
A Libras é a língua das comunidades surdas urbanas. A linguista Lucinda Ferreira, pioneira nos estudos da área, chamava a Libras de LSCB, Língua de Sinais dos Centros Urbanos Brasileiros, e estudava em paralelo a LSKB, dos Ka'apor. Para ela, eram duas línguas de sinais brasileiras diferentes.
As línguas indígenas de sinais surgem dentro de cada povo. Entre os Ka'apor, segundo a Liames, pais e parentes criaram sinais para conversar com os bebês surdos, e praticamente toda a comunidade se tornou bilíngue. E elas não são a versão visual da língua falada do povo: “uma língua de sinais não é a contraparte visual de uma língua oral”, resumem as pesquisadoras.
O caso mais estudado é o dos Terena. Na tese defendida na Unesp em 2018, Priscilla Soares concluiu que a língua terena de sinais é independente da Libras, com fonologia, morfologia, sintaxe e semântica próprias.
A Libras tem sotaques e gírias regionais, como já mostramos aqui no blog. Isso é variação dentro de uma língua; as LIS são outras línguas. Ainda assim, os pesquisadores pedem cuidado: antes de chamar um sistema de “sinais caseiros” ou de variedade da Libras, é preciso estudá-lo. Soares e Fargetti falam em “possíveis línguas” enquanto a pesquisa não termina, para garantir desde já os direitos de quem as usa.
Pesquisa, registro e preservação
O conhecimento sobre essas línguas ainda é “pouco e fragmentado”, nas palavras de Soares e Fargetti. O GT LIS surgiu no contexto da Década Internacional das Línguas Indígenas (2022 a 2032), da Unesco, e a cartilha lista ações como:
- Mapear, registrar e difundir as LIS nos territórios indígenas.
- Formar pesquisadores e lideranças indígenas surdos e ouvintes.
- Produzir materiais didáticos e criar uma plataforma de vídeos para registro e estudo das LIS.
- Formar professores e TILIS e criar uma banca específica de proficiência em LIS.
O reconhecimento começa nos municípios
A cartilha lembra que a Lei 10.436/2002 reconheceu a Libras como “meio legal de comunicação e expressão”. Para as LIS, os avanços citados são municipais: as cooficializações em Miranda (MS), Santa Cruz Cabrália (BA) e Rio Tinto (PB).
Parte da pesquisa já é feita por integrantes do GT LIS, como a dissertação de David Kaique Rodrigues dos Santos sobre a LIPS (UESB, 2024) e a tese de Indira Moura sobre a LIPSS. A arte entra junto: aqui no blog, contamos a história da HQ sobre a língua de sinais terena que concorreu ao Troféu HQMIX.
A cartilha indica vídeos para conhecer as LIS. Um deles é esta mesa com membros do GT LIS de vários povos, de abril de 2024:
Especialização gratuita: inscrições até 18 de outubro
Formar professores e intérpretes é uma das metas do GT LIS, e a primeira turma de especialização sai do papel agora, no IFBA de Porto Seguro, com apoio da Diretoria de Políticas de Educação Escolar Indígena (DIPEEI), da Secadi/MEC.
Especialização em Línguas Indígenas de Sinais (LIS)
Pós-graduação gratuita e a distância sobre valorização, preservação e revitalização das LIS e educação multilíngue de indígenas surdos.
Segundo o edital, a seleção segue a ordem cronológica das inscrições, com a documentação correta. É obrigatório anexar o diploma; quem está terminando a graduação pode enviar declaração da instituição e apresentar o diploma na matrícula.
Se você está chegando agora ao tema, comece por o que é Libras. Entender a Libras como língua completa ajuda a ver por que as LIS também merecem ser estudadas, ensinadas e respeitadas.
Créditos e referências
Texto: Equipe LIBRAS.SE, com informações da Feneis, da Funai e do GT LIS, do IFBA, do Conecta Professores, do Libras Online e da revista Liames (Unicamp).
- Feneis. Coordenação do GT LIS divulga a II Edição da Cartilha das Línguas Indígenas de Sinais (LIS). 29 set. 2026.
- GT LIS e Funai. Línguas Indígenas de Sinais (LIS), 2ª edição (PDF). Organização de David Kaique Rodrigues dos Santos e Indira Simionatto Stedile Assis Moura. Brasília: Funai, 2026.
- IFBA. Edital nº 24/2026/PRPGI/IFBA, Especialização em Línguas Indígenas de Sinais. 1º out. 2026.
- Conecta Professores (Leonardo Lima). Especialização gratuita em Línguas Indígenas de Sinais oferece 300 vagas em todo o Brasil. 9 out. 2026.
- Libras Online (Rafael Emil). Abertas inscrições para especialização em Línguas Indígenas de Sinais na modalidade EaD. 8 out. 2026.
- SOARES, Priscilla Alyne Sumaio; FARGETTI, Cristina Martins. Línguas indígenas de sinais: pesquisas no Brasil. Liames, Campinas, v. 22, 2022.
- BAALBAKI, Angela C. F.; CALDAS, Beatriz F.; NOGUEIRA, Tathiana T. Ainda se busca “por uma gramática de línguas de sinais”? A figura de uma precursora. Revista Linguística (UFRJ), v. 16, n. 3, 2020. Fonte da menção à Cena e às siglas LSCB e LSKB.
- CNRS, Structures Formelles du Langage. Séminaire SLS: Angelica Rodrigues, sobre o Projeto Lucinda Ferreira. 6 nov. 2023.
- Instituto Socioambiental. Povos Indígenas no Brasil, para a localização dos povos Ka'apor, Xakriabá, Xukuru e Xerente.
- Vídeo: Mesa: Panorama das Línguas Indígenas de Sinais no Brasil, canal Década das Línguas Indígenas, Brasil, no YouTube. Abr. 2024.
- Ilustração de capa: criada com IA para a LIBRAS.SE. Retrata personagens genéricos, não pessoas reais.
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