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Língua & Cultura Surda · Línguas indígenas de sinais

O Brasil tem outras línguas de sinais além da Libras

Indígenas surdos de vários povos usam línguas de sinais próprias. Uma cartilha nova do GT LIS, com a Funai, e uma especialização gratuita do IFBA ajudam a tirar essas línguas da invisibilidade.

Por LIBRAS.SE 9 min de leitura

Ilustração de capa criada com IA

O que você vai encontrar neste artigo

Quando se fala em língua de sinais no Brasil, quase todo mundo pensa na Libras. Ela é a língua das comunidades surdas das cidades e a mais conhecida do país, mas não é a única. Em aldeias de várias regiões, indígenas surdos e seus parentes ouvintes conversam em línguas de sinais próprias, nascidas dentro de cada povo.

Duas notícias recentes colocaram essas línguas em evidência. Em 29 de setembro, a Feneis divulgou a 2ª edição da cartilha Línguas Indígenas de Sinais (LIS), do Grupo de Trabalho Nacional das Línguas Indígenas de Sinais (GT LIS), feita em parceria com a Funai e o Iphan. E o Instituto Federal da Bahia (IFBA) abriu uma especialização gratuita e a distância sobre o tema, com inscrições até 18 de outubro.

O que são as Línguas Indígenas de Sinais

A cartilha, publicada pela Funai em 2026, se apresenta como “pesquisa de autoria indígena”. É organizada por David Kaique Rodrigues dos Santos e Indira Simionatto Stedile Assis Moura, coordenadores gerais do GT LIS, e reúne 27 autores.

No texto, LIS é o nome do “conjunto das variedades das Línguas Indígenas de Sinais usadas pelos diversos povos indígenas do Brasil”. O GT propõe que elas sejam tratadas como línguas brasileiras, e o objetivo geral do grupo é “reconhecer, vitalizar e oficializar” essas línguas, usadas por indígenas surdos e indígenas ouvintes nas comunidades.

O material traz 47 sinais em LIS criados pelos membros indígenas do GT, em cards do professor Samuel Xavier da Costa, do povo Mura: nomes de povos, como Ka'apor, Kokama e Yanomami, e conceitos como território indígena, demarcação, parente e acessibilidade linguística.

Como a cartilha usa as palavras

  • Indígenas Surdos e Indígenas Ouvintes: para o movimento indígena, diz a cartilha, “o lugar de fala é da COLETIVIDADE”: surdos e ouvintes usam e difundem as LIS juntos.
  • TILIS: tradutores e intérpretes das LIS, papel parecido com o dos TILS da Libras.
  • BRASLIND: termo de Waraxowo'i Maurício Tapirapé para a língua interétnica dos povos indígenas, que o GT quer ensinar por escrito aos indígenas surdos.

Compreendendo o surdo, seja ele indígena, brasileiro, como pertencente a um povo que tem uma cultura, tem uma identidade e essa identidade, no caso dos Indígenas Surdos, se consolida a partir das Línguas Indígenas de Sinais.

Santos (2024), citado na abertura da cartilha LIS

Um mapa por região

A lista junta povos e línguas citados na cartilha e em pesquisas acadêmicas, principalmente o levantamento das linguistas Priscilla Soares e Cristina Fargetti na revista Liames (Unicamp, 2022). Os nomes seguem as fontes, e as pesquisas estão em fases diferentes: algumas línguas já foram descritas, outras ainda estão sendo mapeadas.

NNorte

Paiter Suruí · Rondônia
Língua Indígena Paiter Suruí de Sinais (LIPSS), tema da tese de Indira Moura (Unemat, 2025).
Sateré-Mawé · Amazonas
Sinais de surdos de Parintins, estudados pelo pesquisador surdo Marlon Azevedo (UEA, 2015).
Akwẽ-Xerente · Tocantins
Sinais citados em dissertação da UFG (2016), ainda sem estudo dos parâmetros.

NENordeste

Ka'apor · Maranhão
Língua de sinais Ka'apor (LSKB), uma das primeiras descritas no país (Kakumasu, 1968; Ferreira Brito, 1984). Segue em uso, segundo pesquisa de 2020.
Pataxó · Bahia
Língua Indígena Pataxó de Sinais (LIPS), cooficial em Santa Cruz Cabrália pela Lei 776/2025.
Potiguara · Paraíba
Língua Indígena Potiguara de Sinais (LIPOTS), cooficial em Rio Tinto pela Lei 1.263/2026.
Tentehar · Maranhão
A língua indígena de sinais do povo Tentehar é tema de TCC na Universidade Estadual do Maranhão (2022).
Xukuru do Ororubá · Pernambuco
Pesquisa mapeia surdos do povo (Moura, 2020), mas ainda não se sabe se há uma língua de sinais própria.

COCentro-Oeste

Terena · Mato Grosso do Sul
Língua Indígena Terena de Sinais (LITS), cooficial em Miranda desde 2023. Descrita na tese de Priscilla Soares (Unesp, 2018), na Terra Indígena Cachoeirinha.
Guarani Kaiowá · Mato Grosso do Sul
Sinais registrados em aldeias de Dourados pela pesquisadora surda Shirley Vilhalva (UFSC, 2009).

SESudeste

Xakriabá · Minas Gerais
Língua Indígena Xakriabá de Sinais, tema de mesa-redonda de 2024 indicada pela cartilha.

SSul

Kaingang
Sinais Kaingang da aldeia (SKA), registrados em escola indígena (UFSC, 2008), ainda sem análise linguística aprofundada.

A lista não é completa. E um sinal para o nome de um povo, como os da cartilha, não quer dizer que exista ali uma língua de sinais já documentada.

E não são só as indígenas

O Brasil também tem línguas de sinais em comunidades rurais e cidades pequenas com muitos surdos, como a Cena, de Várzea Queimada (PI), estudada em tese da UFSC (Pereira, 2013). O Projeto Lucinda Ferreira, da Unesp, compara várias delas, como contamos no post sobre Lucinda Ferreira e os estudos sobre Libras.

Por que não são “dialetos da Libras”

A Libras é a língua das comunidades surdas urbanas. A linguista Lucinda Ferreira, pioneira nos estudos da área, chamava a Libras de LSCB, Língua de Sinais dos Centros Urbanos Brasileiros, e estudava em paralelo a LSKB, dos Ka'apor. Para ela, eram duas línguas de sinais brasileiras diferentes.

As línguas indígenas de sinais surgem dentro de cada povo. Entre os Ka'apor, segundo a Liames, pais e parentes criaram sinais para conversar com os bebês surdos, e praticamente toda a comunidade se tornou bilíngue. E elas não são a versão visual da língua falada do povo: “uma língua de sinais não é a contraparte visual de uma língua oral”, resumem as pesquisadoras.

O caso mais estudado é o dos Terena. Na tese defendida na Unesp em 2018, Priscilla Soares concluiu que a língua terena de sinais é independente da Libras, com fonologia, morfologia, sintaxe e semântica próprias.

Variação não é o mesmo que outra língua

A Libras tem sotaques e gírias regionais, como já mostramos aqui no blog. Isso é variação dentro de uma língua; as LIS são outras línguas. Ainda assim, os pesquisadores pedem cuidado: antes de chamar um sistema de “sinais caseiros” ou de variedade da Libras, é preciso estudá-lo. Soares e Fargetti falam em “possíveis línguas” enquanto a pesquisa não termina, para garantir desde já os direitos de quem as usa.

Pesquisa, registro e preservação

O conhecimento sobre essas línguas ainda é “pouco e fragmentado”, nas palavras de Soares e Fargetti. O GT LIS surgiu no contexto da Década Internacional das Línguas Indígenas (2022 a 2032), da Unesco, e a cartilha lista ações como:

O reconhecimento começa nos municípios

A cartilha lembra que a Lei 10.436/2002 reconheceu a Libras como “meio legal de comunicação e expressão”. Para as LIS, os avanços citados são municipais: as cooficializações em Miranda (MS), Santa Cruz Cabrália (BA) e Rio Tinto (PB).

Parte da pesquisa já é feita por integrantes do GT LIS, como a dissertação de David Kaique Rodrigues dos Santos sobre a LIPS (UESB, 2024) e a tese de Indira Moura sobre a LIPSS. A arte entra junto: aqui no blog, contamos a história da HQ sobre a língua de sinais terena que concorreu ao Troféu HQMIX.

A cartilha indica vídeos para conhecer as LIS. Um deles é esta mesa com membros do GT LIS de vários povos, de abril de 2024:

Mesa “Panorama das Línguas Indígenas de Sinais no Brasil”, com membros do GT LIS. Vídeo do canal Década das Línguas Indígenas, Brasil, no YouTube (abril de 2024).

Especialização gratuita: inscrições até 18 de outubro

Formar professores e intérpretes é uma das metas do GT LIS, e a primeira turma de especialização sai do papel agora, no IFBA de Porto Seguro, com apoio da Diretoria de Políticas de Educação Escolar Indígena (DIPEEI), da Secadi/MEC.

Serviço

Especialização em Línguas Indígenas de Sinais (LIS)

Pós-graduação gratuita e a distância sobre valorização, preservação e revitalização das LIS e educação multilíngue de indígenas surdos.

Quem ofereceIFBA, campus Porto Seguro, com GT LIS e DIPEEI/Secadi/MEC
FormatoEaD, com aulas síncronas e assíncronas; 450 horas em 12 meses
Vagas300 no total, 60 por região do país
Cotas50% indígenas; 30% negros, surdos, PcD e quilombolas; 20% ampla concorrência
Quem pode se inscreverGraduados em qualquer área. O edital cita profissionais da educação com conhecimento intermediário ou superior de LIS e Libras.
InscriçõesDe 3 a 18 de outubro de 2026, até 23h59, pelo formulário do edital
Próximas datasResultado final em 16/11, matrícula de 17 a 23/11 e aula inaugural on-line em 24/11, às 18h
Inscreva-se cedo

Segundo o edital, a seleção segue a ordem cronológica das inscrições, com a documentação correta. É obrigatório anexar o diploma; quem está terminando a graduação pode enviar declaração da instituição e apresentar o diploma na matrícula.

Se você está chegando agora ao tema, comece por o que é Libras. Entender a Libras como língua completa ajuda a ver por que as LIS também merecem ser estudadas, ensinadas e respeitadas.

Créditos e referências

Texto: Equipe LIBRAS.SE, com informações da Feneis, da Funai e do GT LIS, do IFBA, do Conecta Professores, do Libras Online e da revista Liames (Unicamp).

  1. Feneis. Coordenação do GT LIS divulga a II Edição da Cartilha das Línguas Indígenas de Sinais (LIS). 29 set. 2026.
  2. GT LIS e Funai. Línguas Indígenas de Sinais (LIS), 2ª edição (PDF). Organização de David Kaique Rodrigues dos Santos e Indira Simionatto Stedile Assis Moura. Brasília: Funai, 2026.
  3. IFBA. Edital nº 24/2026/PRPGI/IFBA, Especialização em Línguas Indígenas de Sinais. 1º out. 2026.
  4. Conecta Professores (Leonardo Lima). Especialização gratuita em Línguas Indígenas de Sinais oferece 300 vagas em todo o Brasil. 9 out. 2026.
  5. Libras Online (Rafael Emil). Abertas inscrições para especialização em Línguas Indígenas de Sinais na modalidade EaD. 8 out. 2026.
  6. SOARES, Priscilla Alyne Sumaio; FARGETTI, Cristina Martins. Línguas indígenas de sinais: pesquisas no Brasil. Liames, Campinas, v. 22, 2022.
  7. BAALBAKI, Angela C. F.; CALDAS, Beatriz F.; NOGUEIRA, Tathiana T. Ainda se busca “por uma gramática de línguas de sinais”? A figura de uma precursora. Revista Linguística (UFRJ), v. 16, n. 3, 2020. Fonte da menção à Cena e às siglas LSCB e LSKB.
  8. CNRS, Structures Formelles du Langage. Séminaire SLS: Angelica Rodrigues, sobre o Projeto Lucinda Ferreira. 6 nov. 2023.
  9. Instituto Socioambiental. Povos Indígenas no Brasil, para a localização dos povos Ka'apor, Xakriabá, Xukuru e Xerente.
  10. Vídeo: Mesa: Panorama das Línguas Indígenas de Sinais no Brasil, canal Década das Línguas Indígenas, Brasil, no YouTube. Abr. 2024.
  11. Ilustração de capa: criada com IA para a LIBRAS.SE. Retrata personagens genéricos, não pessoas reais.
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