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Língua & Cultura Surda · História da Libras

Quem ajudou a construir os estudos sobre Libras? A homenagem a Lucinda Ferreira

A linguista descreveu a Libras como língua décadas antes da lei de 2002. Uma mesa da Abralin lembrou a trajetória dela e deu voz aos surdos que construíram essa pesquisa ao seu lado.

Por LIBRAS.SE 9 min de leitura

Ilustração de capa criada com IA

O que você vai encontrar neste artigo

Hoje parece óbvio que a Libras é uma língua, com gramática própria. Nos anos 1980, não era. Muitos ouvintes falavam em “linguagem de sinais”, e a educação de surdos apostava na oralização ou na Comunicação Total. Para mudar esse quadro, alguém precisava descrever a Libras com os métodos da linguística. Uma das primeiras pessoas a fazer isso no Brasil foi Lucinda Ferreira, que na época assinava Lucinda Ferreira Brito.

Em setembro, Mês do Orgulho Surdo, a Comissão de Libras da Associação Brasileira de Linguística (Abralin) fez uma mesa-redonda em homenagem a ela, divulgada pela Feneis em 9 de setembro. O texto de divulgação a apresenta como “pioneira na consolidação dos estudos linguísticos sobre a língua de sinais brasileira”. O foco da mesa foi pouco comum: as pessoas surdas que atuaram como informantes e colaboradoras das pesquisas dela, reconhecidas “não apenas como colaboradores de pesquisa, mas como sujeitos fundamentais” na formação do campo.

Mesa-redonda “Memórias da Construção da Linguística das Línguas de Sinais no Brasil: Homenagem à Lucinda Ferreira”, da Comissão de Libras da Abralin. Vídeo do canal Abralin no YouTube (setembro de 2026).

Quem é Lucinda Ferreira

Segundo a apresentação do número da Revista Linguística, da UFRJ, dedicado aos 25 anos do livro dela, Lucinda nasceu em Minas Gerais e se mudou para São Paulo, onde fez graduação em Letras na PUC-SP e mestrado na USP, entre 1967 e 1974. O doutorado foi na Universidade Paris IV, de 1974 a 1977, com o linguista francês Bernard Pottier.

O mestrado e o doutorado trataram da adjetivação no português. Depois vieram pós-doutorados em Berkeley, nos Estados Unidos, e em Nijmegen, na Holanda, em semântica e pragmática, segundo o currículo Lattes citado pelas pesquisadoras Angela Baalbaki, Beatriz Caldas e Tathiana Nogueira. Logo após o doutorado, ela passou a se dedicar quase integralmente às línguas de sinais. Deu aulas na Universidade de Mogi das Cruzes, foi professora visitante na UFPE e, a partir de 1987, tornou-se docente da UFRJ.

Linha do tempo

  1. 1967

    1967 a 1977: a formação

    Letras na PUC-SP, mestrado na USP e doutorado na Paris IV, com Bernard Pottier.

  2. 1979

    Começam as línguas de sinais

    Segundo o currículo Lattes, ela passa a trabalhar com a Libras e com a LSKB, a língua de sinais dos Urubu-Kaapor. No mesmo ano surge em São Paulo o embrião do GELES, grupo de estudos sobre linguagem, educação e surdez.

  3. 1982

    Registro em filme

    Produz o filme A Língua de Sinais Urubu-Kaapor: Comunidade Indígena da Floresta Amazônica.

  4. 1984

    Duas línguas de sinais brasileiras

    Publica na revista Sign Language Studies o artigo “Similarities & Differences in Two Brazilian Sign Languages”.

  5. 1993

    O nome Libras

    Em reunião na Feneis, em outubro, os surdos escolhem o nome LIBRAS. Ela adota o nome e deixa a sigla LSCB.

  6. 1995

    O livro

    Lança Por uma gramática de línguas de sinais, pela editora Tempo Brasileiro.

  7. 2002

    A lei

    A Lei 10.436 reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão.

  8. 2020

    25 anos do livro

    A Revista Linguística, da UFRJ, dedica um número inteiro à obra.

  9. 2022

    Um projeto com o nome dela

    É criado na Unesp o Projeto Lucinda Ferreira (processo Fapesp 2022/05962-4), sobre línguas de microcomunidades surdas.

  10. 2026

    A homenagem

    A Comissão de Libras da Abralin reúne colaboradores surdos para contar essa história.

Dos Urubu-Kaapor à LSCB

Uma das primeiras frentes de Lucinda foi outra língua de sinais brasileira. Segundo Fossile e Venâncio (2013), citados por Baalbaki, Caldas e Nogueira, a ideia surgiu quando ela leu o artigo Urubu Sign Language, de James Kakumasu (1968). Ela conviveu um mês com os Urubu-Kaapor, no Maranhão, registrou os dados e documentou a experiência em filme. A conclusão foi que a língua de sinais desse povo era uma língua de sinais legítima, criada pela própria comunidade.

Seguindo o padrão internacional de siglas, ela chamou essa língua de LSKB, Língua de Sinais Kaapor Brasileira. A língua dos surdos das cidades virou LSCB, Língua de Sinais dos Centros Urbanos Brasileiros. Hoje, as línguas de sinais dos povos indígenas são estudadas e defendidas também pelos próprios indígenas, como mostramos em O Brasil tem outras línguas de sinais além da Libras.

A sigla LSCB não ficou. No prefácio do livro de 1995, conforme a resenha de Eliamar Godoi (UFU), a autora conta que adotou o nome LIBRAS por decisão de uma reunião na Feneis, em outubro de 1993. Mesmo fora do padrão internacional, prevaleceu a vontade dos surdos brasileiros. Na mesa da Abralin, colaboradores lembraram essa discussão e contaram que ela deixou a escolha do nome para os surdos.

Pesquisa feita com surdos

O livro de 1995 reúne pesquisas feitas em parceria. A apresentação da Revista Linguística cita colaboradores surdos como Myrna Salerno Monteiro, Sérgio Marmora Andrade e Nelson Pimenta de Castro; pesquisadoras ouvintes como Tanya Amara Felipe e Deize Vieira dos Santos; e parceiros estrangeiros como Norine Berenz e o matemático francês Remi Langevin, com quem ela propôs um sistema de transcrição de sinais. Parte delas passou pelo GELES, grupo nascido das pesquisas e orientações de Lucinda que, segundo Tanya Felipe, foi o embrião do atual GT Libras da Anpoll.

Na mesa da Abralin, colaboradores surdos apresentados como os professores Ricardo, Regiane, Nelson e Sérgio contaram como foi esse trabalho, e a professora Angelica Rodrigues, da Unesp, apresentou o Projeto Lucinda Ferreira. Alguns relatos:

Sobre os relatos

A mesa aconteceu em Libras. Os relatos acima são um resumo nosso, feito a partir da interpretação em voz da transmissão, sem citações literais. Para ver as falas completas, assista ao vídeo da Abralin.

Os desdobramentos atuais da linguística das línguas de sinais, direta ou indiretamente, devem o reconhecimento ao pioneirismo e à bravura de Lucinda.

Marília Costa, Andrew Nevins e Anderson Almeida da Silva, na Revista Linguística (UFRJ), 2020

O livro de 1995

Por uma gramática de línguas de sinais saiu em 1995 pela Tempo Brasileiro, com 13 capítulos em três partes: aspectos descritivos da Libras, metodologia de pesquisa e pesquisa comparativa. A primeira parte trata de morfofonologia, sintaxe, negação, pronomes, classificadores, modalidade, termos para cores e atos de fala. A segunda defende o registro dos dados em vídeo. O capítulo final compara sinais de tempo e espaço na Libras e na LSKB.

O título já diz muito. Para Baalbaki, Caldas e Nogueira, o “por” pode ser lido como “em favor de”. O livro também tinha posição política: na introdução, a autora defende que “o bilinguismo fica sendo a mais adequada abordagem educacional para os surdos”. E o plural de “línguas de sinais” não é por acaso. Segundo os organizadores da Revista Linguística, o texto cita fenômenos de outras línguas de sinais, e talvez por isso não se chame “por uma gramática da Libras”. A obra foi reimpressa em 2010, já assinada como Lucinda Ferreira, e em 2020 não era mais reimpressa.

Por que isso importa

A Lei 10.436/2002 descreve a Libras como um sistema linguístico de natureza visual-motora, “com estrutura gramatical própria”. Descrever essa estrutura foi justamente o trabalho de pesquisadores como Lucinda e seus colaboradores surdos, desde os anos 1980. A gramática dela foi escrita, lembram Baalbaki, Caldas e Nogueira, numa época em que a Libras “ainda não estava legalizada e nem mesmo legitimada como língua nos espaços acadêmicos e escolares”.

O reconhecimento veio de décadas de pesquisa e de mobilização da comunidade surda, e a história dessa pesquisa também é dos surdos que participaram dela. O legado segue vivo: o Projeto Lucinda Ferreira, financiado pela Fapesp (processo 2022/05962-4), compara línguas de sinais de microcomunidades surdas em lugares como Várzea Queimada (PI), Tiros (MG), Umuarama (PR) e a Vila de Fortalezinha (PA).

Reconhecida, mas não oficial

A Lei 10.436/2002 reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão, mas não a torna língua oficial do país. Entenda a diferença em Libras não é segunda língua oficial do Brasil e veja o que mudou desde então em 20 anos da Lei de Libras. Para começar do básico, leia o que é Libras.

Créditos e referências

Texto: Equipe LIBRAS.SE, com informações da Feneis, da Abralin, da Revista Linguística (UFRJ), da revista Educação e Filosofia (UFU), da Sign Language Studies e do CNRS.

  1. Feneis. Memórias da Construção da Linguística das Línguas de Sinais no Brasil: Homenagem à Lucinda Ferreira. 9 set. 2026.
  2. Vídeo: Abralin. Memórias da Construção da Linguística das Línguas de Sinais no Brasil: Homenagem à Lucinda Ferreira. Canal Abralin no YouTube, set. 2026.
  3. COSTA, Marília U. C. L. M.; NEVINS, Andrew; SILVA, Anderson Almeida da. Apresentação: Pesquisas sobre línguas de sinais, uma contribuição à luz dos 25 anos de “Por uma gramática de línguas de sinais”. Revista Linguística (UFRJ), v. 16, n. 3, 2020.
  4. BAALBAKI, Angela C. F.; CALDAS, Beatriz F.; NOGUEIRA, Tathiana T. Ainda se busca “por uma gramática de línguas de sinais”? A figura de uma precursora. Revista Linguística (UFRJ), v. 16, n. 3, p. 29 a 59, 2020.
  5. GODOI, Eliamar. Resenha de “Por uma gramática de língua de sinais”. Educação e Filosofia (UFU), v. 29, n. especial, 2015.
  6. BRITO, Lucinda Ferreira. Similarities & Differences in Two Brazilian Sign Languages. Sign Language Studies, n. 42, p. 45 a 56, 1984.
  7. CNRS, Structures Formelles du Langage. Séminaire SLS: Angelica Rodrigues, sobre o Projeto Lucinda Ferreira (Fapesp, processo 2022/05962-4). 6 nov. 2023.
  8. Brasil. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Planalto.
  9. Ilustração de capa: criada com IA para a LIBRAS.SE. Retrata personagens genéricos, não pessoas reais.
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