Intérprete de Libras pode ter que passar por prova prática para ser contratado
Aprovado em agosto pela Comissão de Educação do Senado, o PL 3.878/2024 exige avaliação prática de tradutores, intérpretes e guias-intérpretes de Libras. O texto agora está na Câmara e ainda não virou lei.

Tradutores, intérpretes e guias-intérpretes de Libras podem passar a ter que mostrar, na prática, o que sabem fazer antes de serem contratados. É o que prevê o Projeto de Lei 3.878/2024, aprovado em 12 de agosto pela Comissão de Educação e Cultura do Senado, por 14 votos a 0.
A decisão foi terminativa e não houve recurso ao Plenário, então o Senado enviou o texto à Câmara dos Deputados em 24 de agosto. O projeto segue em tramitação e só vale se for aprovado pelos deputados e sancionado.
O que o projeto muda
Apresentada em 2024 pelo então senador Castellar Neto (PP-MG), a proposta altera a Lei 12.319/2010, que regulamenta a profissão de TILS. Desde a Lei 14.704/2023, essa lei exige formação específica: curso técnico ou graduação em tradução e interpretação em Libras ou, para quem se formou em outra área, cursos de pelo menos 360 horas e exame de proficiência.
O texto aprovado no Senado soma a isso a aprovação em uma "banca de avaliação prática e de competências". Ela pode acontecer em processos seletivos simplificados, concursos públicos ou entrevistas. Os critérios para cada contexto, como educação, saúde, cultura e Justiça, ficam para uma regulamentação específica, ouvidas as organizações da comunidade surda.
A banca reúne docentes surdos, docentes sinalizantes de Libras com experiência na área e tradutores-intérpretes e guias-intérpretes de universidades com pesquisa no tema ou de organizações da comunidade surda. Uma emenda limitou a regra à profissão ligada à Libras, sem mexer nas normas dos tradutores públicos e intérpretes comerciais. Se virar lei, a mudança passa a valer 180 dias após a publicação.
O senador Humberto Costa (PT-PE), que leu na comissão o relatório de Flávio Arns (PSB-PR), explicou à Rádio Senado por que a prova importa:
"Dada a complexidade e a importância da interpretação de Libras nos mais diversos contextos, é essencial que seja assegurada a competência prática do profissional, além da formação teórica, de forma a conferir concretude e a igualdade material das pessoas com deficiência."

O que pediram a Feneis e a Febrapils
A Feneis e a Febrapils, federação que reúne as associações de tradutores, intérpretes e guias-intérpretes de língua de sinais, enviaram a Arns uma nota técnica conjunta com uma "proposta consensual" de ajustes. O documento, numerado 006/2025, foi divulgado no site da Feneis em 21 de agosto.
As entidades pediram que a avaliação olhe também para habilidades interpessoais e ético-culturais, que os critérios sejam construídos com entidades da comunidade surda e dos profissionais e que a banca tenha ao menos uma pessoa surda sinalizante de Libras com conhecimento na área.
Parte das sugestões aparece no texto enviado à Câmara, como a expressão "avaliação prática e de competências" e os docentes sinalizantes na banca. Já a presença obrigatória de uma pessoa surda sinalizante não foi escrita como a nota propõe: o texto cita docentes surdos entre os possíveis integrantes.
Por que a qualidade pesa para quem contrata
Ao apresentar o projeto, o autor citou uma pesquisa da Feneis: segundo a entidade, muitos profissionais têm a formação exigida, mas não desenvolvem as habilidades técnicas para interpretar bem. Para escolas, hospitais, órgãos públicos e empresas, esse é o ponto central. O diploma mostra a formação; a prova mostra se o intérprete leva a mensagem com fidelidade naquele contexto. Veja o papel do intérprete de Libras na sociedade e como planejar a Libras em eventos sem improviso.
E a Libras para todos os alunos?
Na mesma reportagem, a Rádio Senado lembrou o PL 2.062/2025, do senador Jaime Bagattoli (PL-RO), que propõe ensinar Libras a todos os estudantes da educação básica, em escolas públicas e privadas. O texto ainda passará pelas comissões de Direitos Humanos e de Educação. A educação bilíngue de surdos já está na lei desde 2021, como mostramos no post sobre o intérprete na escola bilíngue.
Créditos e referências
Texto: Equipe LIBRAS.SE, com informações da Rádio Senado, da Agência Senado, do Senado Federal e da Feneis.
- Rádio Senado. Ensino de Libras ainda enfrenta desafios para avançar. Reportagem de Yasmim Rodrigues, 9 de setembro de 2026.
- Agência Senado. Avaliação prática poderá ser exigida de intérpretes e tradutores de Libras. 12 de agosto de 2026.
- Agência Senado. Proposta exige avaliação prática para intérpretes de Libras. 4 de novembro de 2024.
- Senado Federal. Projeto de Lei 3.878/2024: tramitação e autógrafo enviado à Câmara (24 de agosto de 2026). Consulta em 10 de outubro de 2026.
- Feneis. Nota Técnica 006/2025: Feneis e Febrapils apresentam proposta consensual sobre o PL 3.878/2024. 21 de agosto de 2026.
- Presidência da República. Lei 12.319/2010, com a redação dada pela Lei 14.704/2023.
- Imagem de capa: Pedro França/Agência Senado. Ilustração no corpo do texto criada com IA para a LIBRAS.SE.
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