O que é cultura surda?
Cultura surda é o jeito de as pessoas surdas perceberem, entenderem e transformarem o mundo a partir da experiência visual. Ela aparece na língua de sinais, mas também em costumes, valores, piadas, poesia, teatro, esporte, organização política e até na forma de chamar alguém do outro lado da sala.
A pesquisadora surda Karin Strobel, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), descreve a cultura surda como o modo de o sujeito surdo compreender o mundo e modificá-lo para torná-lo acessível e habitável, ajustando-o às suas percepções visuais. É a ideia central do livro As imagens do outro sobre a cultura surda, publicado pela Editora da UFSC em 2008.
A mudança de olhar é esta: a surdez deixa de ser vista só como falta de audição e passa a ser entendida também como uma diferença linguística e cultural.
Isso não apaga a dimensão médica nem as escolhas de cada pessoa. Há pessoas surdas que usam aparelho auditivo ou implante coclear, outras que oralizam, outras que não. Mas, para quem tem a Libras como primeira língua, a experiência de ser surdo é antes de tudo a de pertencer a um grupo com língua e cultura próprias. É por isso que muitos autores escrevem Surdo, com S maiúsculo, quando falam dessa identidade cultural.
E é por isso também que o termo "surdo-mudo" é errado: pessoas surdas têm voz e têm língua. O termo certo é surdo ou pessoa surda.
Os 8 artefatos da cultura surda
Karin Strobel chama de artefatos culturais aquilo que um povo produz, usa e compartilha. Ela descreve oito artefatos do povo surdo. Os exemplos abaixo são nossos, para mostrar como cada um aparece no dia a dia.
Experiência visual
O mundo chega pelos olhos. Campainha que acende uma luz, despertador que vibra, aplauso com as mãos para cima, balançando no ar.
Linguístico
A língua de sinais é o centro da cultura. No Brasil, a Libras, com gramática, regionalismos e gírias próprias.
Familiar
A maioria das crianças surdas nasce em famílias ouvintes. Por isso, a escola e a associação de surdos muitas vezes viram a "segunda família" onde a língua é transmitida.
Literatura surda
Poesia em Libras, contação de histórias, piadas visuais e versões surdas de contos clássicos. A literatura é sinalizada, não só escrita.
Vida social e esportiva
Associações, festas, encontros e campeonatos. As Surdolimpíadas existem desde 1924.
Artes visuais
Pintura, teatro, dança, fotografia e cinema que expressam a experiência de ser surdo. A arte fala de identidade, resistência e orgulho.
Político
A luta organizada por direitos: escola bilíngue, intérpretes, acessibilidade. Foi esse movimento que conquistou a Lei de Libras.
Materiais
Objetos que tornam o mundo acessível: legendas, alarmes luminosos, videochamada, aplicativos e a janela de Libras nos vídeos.
Identidade surda, comunidade e povo surdo
Não existe um único jeito de ser surdo. A pesquisadora Gladis Perlin, considerada a primeira surda a concluir um doutorado no Brasil (UFRGS, 2003), descreveu diferentes identidades surdas, que dependem da história de cada pessoa, do contato com a língua de sinais e com outras pessoas surdas.
Política
Pessoas surdas que vivem a experiência visual, usam a língua de sinais e se engajam na defesa da cultura surda.
Híbrida
Pessoas que nasceram ouvintes e ensurdeceram. Conhecem a estrutura do português e convivem com a língua de sinais.
De transição
Quem cresceu longe da comunidade surda e, ao encontrá-la, passa a construir a identidade surda.
Incompleta
Pessoas surdas que, sob pressão de uma visão ouvinte, ainda negam ou escondem a própria surdez.
Flutuante
Quem transita entre o mundo surdo e o ouvinte sem se fixar plenamente em nenhum dos dois.
Dois termos costumam aparecer juntos. A comunidade surda reúne pessoas surdas e ouvintes que compartilham interesses e lutas, como familiares, intérpretes, professores e amigos. Já o povo surdo se refere às próprias pessoas surdas, ligadas pela língua de sinais, pela história e pela cultura, mesmo que vivam em cidades diferentes.
Ouvintes são bem-vindos. Mas a regra de ouro do movimento surdo vale para qualquer projeto: nada sobre nós, sem nós. Quem fala sobre a comunidade surda precisa ouvir, quer dizer, ver, o que pessoas surdas têm a dizer.
Linha do tempo: da primeira escola à lei
A história da Libras é feita de conquistas e de uma longa proibição. Os marcos abaixo foram conferidos em leis e fontes oficiais.
A primeira escola pública para surdos
Em Paris, o abade Charles-Michel de l'Épée funda uma escola para surdos e usa sinais no ensino, uma virada na educação de surdos que influenciaria o mundo todo, inclusive o Brasil.
Huet e a escola do Rio de Janeiro
O professor surdo francês E. Huet abre no Rio, com apoio de D. Pedro II, a escola que hoje é o INES. A data oficial de fundação é 26 de setembro de 1857. A Libras nasce do encontro entre os sinais trazidos da França e os que surdos brasileiros já usavam.
O primeiro dicionário de sinais do Brasil
Flausino José da Gama, aluno surdo do instituto, publica a Iconographia dos Signaes dos Surdos-Mudos, com 382 sinais desenhados.
O Congresso de Milão
De 6 a 11 de setembro, educadores reunidos em Milão votam pelo oralismo: ensinar surdos só pela fala. As línguas de sinais são afastadas das escolas em muitos países por décadas.
Nasce a Federação Mundial dos Surdos
A WFD é fundada em Roma, em 23 de setembro. A data vira, anos depois, o Dia Internacional das Línguas de Sinais.
FENEIS
Em 16 de maio, no Rio de Janeiro, nasce a FENEIS, a partir da antiga FENEIDA, de 1977. Desta vez, com pessoas surdas na liderança.
A Lei de Libras
Em 24 de abril, a Lei 10.436 reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão. Atenção: isso não faz dela a segunda língua oficial do Brasil.
Libras na formação de professores
O Decreto 5.626 torna a Libras disciplina obrigatória nas licenciaturas e em Fonoaudiologia. Em 2006, a UFSC abre o primeiro curso de Letras-Libras do país.
Profissão reconhecida e Milão repudiado
A Lei 12.319, de 1º de setembro, regulamenta a profissão de tradutor e intérprete de Libras. Em julho, no congresso internacional de educação de surdos em Vancouver, as resoluções de Milão são formalmente rejeitadas.
Lei Brasileira de Inclusão
A LBI (Lei 13.146) exige, entre outros recursos, janela com intérprete de Libras, legenda oculta e audiodescrição nos serviços de radiodifusão de sons e imagens.
A ONU reconhece a data
A Assembleia Geral aprova o 23 de setembro como Dia Internacional das Línguas de Sinais, celebrado pela primeira vez em 2018.
Educação bilíngue na LDB
A Lei 14.191 inclui a educação bilíngue de surdos como modalidade de ensino: Libras como primeira língua e português escrito como segunda.
Brasil nas Surdolimpíadas e surdos no Oscar
Caxias do Sul (RS) recebe as Surdolimpíadas, de 1º a 15 de maio. Em março, Troy Kotsur vence o Oscar de ator coadjuvante por CODA.
Guia-intérprete e surdez unilateral
A Lei 14.704 atualiza a profissão e inclui o guia-intérprete, que atende pessoas surdocegas. A Lei 14.768 passa a considerar deficiência auditiva também a perda unilateral total.
Datas da comunidade surda
As datas que a comunidade surda celebra e relembra. Baixe o calendário em PDF para o mural da escola ou da empresa.
Dia Nacional da Libras
Lei 13.055/2014. Lembra a Lei 10.436, de 24 de abril de 2002. Leia mais
Dia Internacional da Surdocegueira
Data do nascimento de Helen Keller, em 1880.
Dia do Tradutor e Intérprete de Libras
Data criada em Santa Catarina (Lei estadual 16.364/2014) e adotada por outros estados. Não há lei federal.
Setembro Azul
Mês da visibilidade da comunidade surda. A fita azul foi lançada em 1999, no Congresso Mundial da WFD, em Brisbane.
Dia Internacional das Línguas de Sinais
Data da ONU desde 2018, no aniversário da WFD. Leia mais
Dia Nacional dos Surdos
Lei 11.796/2008. Lembra a fundação do INES, em 1857. Leia mais
Semana Internacional dos Surdos
Promovida pela WFD na última semana completa de setembro, desde 1958.
Dia Nacional de Prevenção e Combate à Surdez
Data do Ministério da Saúde, voltada à saúde auditiva.
Dia Nacional da Pessoa com Surdocegueira
Instituído pela Lei 14.605/2023.
Pessoas surdas que fizeram história
Uma lista curta, com foco no Brasil. Toda escola deveria conhecer esses nomes.
E. Huet
Professor surdo francês que fundou no Rio de Janeiro a escola que deu origem ao INES. Anos depois, seguiu para o México, onde também atuou na educação de surdos.
Flausino José da Gama
Aluno surdo do instituto, autor do primeiro dicionário de língua de sinais do Brasil, com 382 sinais desenhados.
Gladis Perlin
Considerada a primeira surda doutora do Brasil, pela UFRGS, em 2003. Seus estudos sobre identidades surdas são referência até hoje. Outra doutora surda
Karin Strobel
Pesquisadora surda e professora da UFSC, autora de As imagens do outro sobre a cultura surda e da descrição dos artefatos culturais do povo surdo.
Marianne Stumpf
Pesquisadora surda da UFSC, pioneira no estudo e no ensino da escrita de sinais (SignWriting) no Brasil.
Nelson Pimenta
Ator e poeta surdo, referência na literatura em Libras e na divulgação da língua em vídeo.
Helen Keller
Escritora e ativista surdocega americana. A data do seu nascimento, 27 de junho, é o Dia Internacional da Surdocegueira.
Marlee Matlin
Atriz surda americana, venceu o Oscar de melhor atriz por Filhos do Silêncio e segue como voz ativa por representatividade.
Troy Kotsur
Primeiro homem surdo a vencer um Oscar de atuação, como ator coadjuvante em CODA. Leia sobre o filme
A língua de sinais não é universal
Cada país tem a sua língua de sinais, e elas não são versões sinalizadas das línguas faladas. A Libras é diferente da língua de sinais portuguesa, mesmo com Brasil e Portugal falando português. Já a influência francesa, que chegou com Huet, aparece em parte do vocabulário, mas a Libras se formou como uma língua própria.
Dentro do Brasil também há variação. A Libras tem sotaques e gírias regionais, e existem línguas de sinais de comunidades indígenas, como a Língua de Sinais Ka'apor, no Maranhão, usada por surdos e ouvintes da comunidade. O tema chegou até os quadrinhos.
Um caso famoso fora do Brasil é o da ilha de Martha's Vineyard, nos Estados Unidos. Por causa de uma surdez hereditária frequente, surdos e ouvintes sinalizavam no dia a dia, entre os séculos XVIII e XX. A língua da ilha desapareceu no século XX.
E quando pessoas surdas de vários países se encontram? Em eventos internacionais, elas usam os Sinais Internacionais, um sistema de contato que ajuda na comunicação, mas não substitui as línguas nacionais. Saiba mais no post sobre o Dia Internacional das Línguas de Sinais.
Filmes, séries e livros sobre cultura surda
Uma seleção para começar. Repare em quem está em cena: hoje a comunidade surda cobra, com razão, que personagens surdos sejam vividos por atores surdos.
Para assistir
- CODA (2021). A filha ouvinte de uma família surda, com elenco surdo. Venceu o Oscar de melhor filme. Nosso post
- O Som do Silêncio. Um baterista que perde a audição e encontra uma comunidade surda. O que o filme ensina sobre Libras
- Filhos do Silêncio (1986). O filme que deu o Oscar a Marlee Matlin.
- Um Lugar Silencioso (2018). Terror em que a família se comunica em língua de sinais, com a atriz surda Millicent Simmonds.
- A Família Bélier (2014). A história que inspirou CODA. Vale assistir aos dois e conversar sobre os pais surdos vividos por atores ouvintes no original.
- Documentários grátis. Nossa seleção de documentários sobre surdez no YouTube.
Para ler
- As imagens do outro sobre a cultura surda, de Karin Strobel. A base para entender os artefatos culturais.
- LIBRAS? Que língua é essa?, de Audrei Gesser. Desmonta, um a um, os mitos sobre a Libras.
- Língua de Sinais Brasileira: estudos linguísticos, de Ronice Müller de Quadros e Lodenir Karnopp. A referência sobre a gramática da Libras.
- Vendo Vozes, de Oliver Sacks. Um neurologista ouvinte descobre a língua de sinais e a cultura surda.
- O Voo da Gaivota, de Emmanuelle Laborit. Autobiografia de uma atriz surda francesa.
Como respeitar a cultura surda no dia a dia
Faça
- Use "surdo" ou "pessoa surda".
- Chame a atenção com um toque no ombro ou um aceno.
- Fale com a pessoa surda, não com o intérprete.
- Aprenda alguns sinais básicos.
- Coloque Libras e legenda nos seus vídeos.
Evite
- "Surdo-mudo", "mudinho" e "deficiente" como apelido.
- Gritar ou exagerar a boca ao falar.
- Inventar um sinal para você mesmo: o sinal pessoal é dado por pessoas surdas.
- Tratar a Libras como mímica ou como "português com as mãos".
- Falar sobre a comunidade surda sem nenhuma pessoa surda na conversa.
Perguntas frequentes sobre cultura surda
O que é cultura surda?
Cultura surda é o jeito de as pessoas surdas perceberem, entenderem e transformarem o mundo a partir da experiência visual. Ela inclui a língua de sinais, valores, costumes, arte, humor, literatura, esporte e formas de organização política próprias da comunidade surda.
Quais são os artefatos da cultura surda?
A pesquisadora surda Karin Strobel descreve oito artefatos culturais do povo surdo: experiência visual, linguístico, familiar, literatura surda, vida social e esportiva, artes visuais, política e materiais.
Ouvinte pode fazer parte da comunidade surda?
Sim. A comunidade surda reúne pessoas surdas e ouvintes que compartilham interesses e lutas em comum, como familiares, intérpretes, professores e amigos. Já o termo povo surdo costuma se referir às próprias pessoas surdas, ligadas pela língua de sinais e pela cultura.
Por que o Setembro Azul é o mês da comunidade surda?
Setembro reúne datas importantes: o Congresso de Milão, em 1880, o Dia Internacional das Línguas de Sinais, em 23 de setembro, e o Dia Nacional dos Surdos, em 26 de setembro. A fita azul foi lançada em 1999, no Congresso Mundial da Federação Mundial dos Surdos, em Brisbane.
A língua de sinais é universal?
Não. Cada país tem a sua língua de sinais, e algumas comunidades têm línguas próprias, como a Língua de Sinais Ka'apor, no Maranhão. No Brasil, a língua da comunidade surda é a Libras.
Fontes
Leis federais 10.436/2002, 11.796/2008, 12.319/2010, 13.055/2014, 13.146/2015, 14.191/2021, 14.605/2023, 14.704/2023 e 14.768/2023 e Decreto 5.626/2005 (Câmara dos Deputados e Senado Federal). Lei estadual de Santa Catarina 16.364/2014 (ALESC). Resolução A/RES/72/161 da ONU. Federação Mundial dos Surdos (wfdeaf.org). IBGE, Censo 2022, resultados divulgados em maio de 2025 (via Agência Brasil). STROBEL, Karin. As imagens do outro sobre a cultura surda. Florianópolis: Editora da UFSC, 2008. PERLIN, Gladis. O ser e o estar sendo surdos: alteridade, diferença e identidade. Tese, UFRGS, 2003. ICSD (ciss.org), histórico e Surdolimpíadas de Caxias do Sul 2022.
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